terça-feira, 19 de abril de 2011

Pânico 4 (resenha)

Sequência nostálgica com jeito de refilmagem peca por excesso de metalinguagem e não deixa espaço para material original próprio


O diretor Wes Craven abre o novo capítulo da cine-série “Pânico” reconhecendo e satirizando o que qualquer crítico ou fã da trilogia original possa reclamar a respeito deste longa: exploração de fórmulas e ideias gastas, sequência oportunista e uso de metalinguagem que já não é novidade para ninguém em um gênero já decadente. Assim Craven tenta (re)fazer o que o primeiro "Pânico" fez há mais de uma década - um bem humorado comentário sobre os filmes de terror atuais, além de dar continuidade e inovar o gênero. Pena que o filme falhe nesta segunda tarefa.

A grande sacada do filme de 1996 era encher a trama com referências a outros longas do gênero, que faziam os fãs de filmes de terror sorrirem de felicidade ao verem sua paixão reconhecida e usada na tela grande, definir os clichês e regras dos filmes de serial killers e, ainda assim, fazer um “ teen terror” original. Essa metalinguagem não era comum na época, e o filme em si abriu caminho para uma nova leva de assassinos em série matadores de adolescentes no cinema. Mas os tempos e principalmente o cinema são outros em 2011. Duas sequências, o declínio do "terror adolescente", a ascensão do "torture porn" e o reinado das refilmagens fazem de "Pânico 4" um produto nostálgico e um prato cheio para Craven e o roteirista Kevin Willamson (ambos mentores da trilogia original) reavaliarem o terror atual – porém, a dupla foca demais nas referências e nas auto-referências e se esquece de criar uma trama própria mais consistente.

O longa mostra Sidney Prescott (Neve Campbell) voltando para a cidade de Woodsboro depois de mais de uma década após os assassinatos, para o lançamento de seu livro. Lá ela reencontra os amigos e sobreviventes Dewey (David Arquette) e Gale (Courtney Cox), mas seu retorno traz de volta também o assassino mascarado (com a famosa máscara de “ghostface”) que vai aterrorizar não só Sidney, mas sua prima Jill (Emma roberts) e seus amigos. Enfim, com novas caras adolescentes e mais sangue e mortes que os anteriores (para a plateia que se acostumou com “jogos Mortais” isso nunca é o suficiente), não há uma cena sequer em “Pânico 4" que não faça referência aos filmes de terror dos últimos anos ou à trilogia original. Há a discussão não muito clara das novas regras do gênero – a regra é não seguir as regras, e o negócio é fazer uma refilmagem que supere o original em todos os sentidos, mas esta acaba não deixando espaço para a construção da tensão, da trama em si e principalmente dos novos personagens - a motivação do(s) assassino(s) (será apenas um? serão dois como nos anteriores? As regras mudam mesmo?) é totalmente a esmo e sem fundamento, um ponto muito fraco em relação aos outros da trilogia. E é ótimo ver Dewey e Gale tentando resolver o mistério como antigamente, assim como Sidney é o único personagem com profundidade e verdadeira conexão com os longas originais. Porém, há pouco espaço para os “velhos” elementos no meio da necessidade quase gritante de renovação que o longa deixa transparecer.


“You forgot the first rule about remakes: don’t fuck with the original”. A frase, que mostra certo cinismo na visão dos criadores, mostra como “Pânico 4” é uma sequência com cara de refilmagem, contendo o próprio making-off. Mas será que eu é que fiquei velho e ranzinza, e não entendo mais o que me fazia gostar tanto desses “slasher films” na adolescência? Após rever a trilogia original (digo "original" porque elas fecham uma história completa, na qual o próprio diretor afirmou não querer mais trabalhar) antes de assistir este novo, afirmo que continuo admirando e gostando muito dela. No final das contas, “Pânico 4” é bem humorado e tem seus momentos, mas tinha muito potencial para ser melhor. E também, em se tratando de continuações, poderia ter sido muito pior.

terça-feira, 29 de junho de 2010

Coletânea "O Lado Sombrio - 13 Contos Imortais"

Acabou se ser lançada o livro "O Lado Sombrio - 13 contos imortais", coletânea da Editora CanalBRV que reúne contos de terror e suspense de autores novos brasileiros - entre eles, este que vos escreve!



Suspense e terror são gêneros literários que fascinam leitores em todo o mundo, mas que ainda dispõem de poucos autores no Brasil. “Sabemos que há uma multidão de fãs assíduos, mas ainda carecemos de escritores desse universo particular da literatura em nosso País”, comenta o escritor Paulo Ballado. Foi pensando nisso que Ballado promoveu uma extensa seleção nacional. O resultado é a obra “O Lado Sombrio - 13 Contos Imortais” (Editora BRVCom, 128 pág.), que será lançada neste domingo (27/06), no Bar Calabouço.

“A seleção durou vários meses e utilizamos todos os meios possíveis, de indicações a entrevistas, para reunir os 13 melhores contos de suspense e terror de escritores brasileiros da atualidade”, relata Ballado.

São, ao todo, nove os autores da obra: Vitelio Brustolin, Vivian Wolkoff, Marcelo dos Santos, Rafael Bonaldi, Virgílio Gabriel, Dgenal Gonçalves Rocha, Rubem Cabral, Eduardo Caon e o próprio Paulo Ballado, que além de assinar o conto de encerramento, é o organizador do livro.

O livro pode ser adquirido POR ESTE SITE.

Mais detalhes no blog do CanalBRV!

Nota que saiu no jornal O dia, quando a coletânea foi lançada:



VAMOS AJUDAR OS NOVOS ESCRITORES BRASILEIROS, JÁ QUE A LITERATURA NESTE PAÍS É ALGO TÃO DESPREZADO - AINDA MAIS A LITERATURA FANTÁSTICA!

terça-feira, 1 de junho de 2010

Irmãos

Não venha me dizer que você não tem.
Eu tenho, você tem, todo mundo que puder imaginar tem. E isso inclui André Figueiredo, por incrível que pareça. Veja bem: essa cidade é pequena e o povo fala demais, não importa o assunto. E muitas vezes um caso é contado tantas vezes e por tanto tempo, sofrendo as mais variadas distorções e adições de detalhes, que ele acaba se tornando uma bela aberração, se comparada aos fatos originais. E quem vê André hoje, andando apressado pelas ruas para não perder a hora ou o ônibus, não imagina que esse trabalhador calvo e acima do peso seja ele mesmo - ou melhor, aquele André.
Meu irmão estudou na classe dele na sétima série...
Minha prima ficou com ele uma vez, antes daquilo acontecer...
Eu tenho um amigo, que tem um amigo, que comprou cerveja pra ele numa festa, há muito tempo atrás....
Todo mundo tenta criar um vínculo entre a história que vão contar e eles mesmos, é uma artimanha natural para se ganhar a confiança do ouvinte, pergunte para qualquer testemunha de Jeová. Mas acontece que André e eu éramos muito amigos naquela época. Além de estudarmos na mesma escola, fazíamos juntos aulas de judô desde criança e tínhamos quase os mesmos grupos de amigos – bem, nenhuma coincidência mágica para uma cidade como essa. Tínhamos 17 anos, certeza absoluta de que nossos sonhos estavam predestinados a darem certo, nenhum juízo e um indisfarçável otimismo diante da vida.
Mas André era... O Cara. Todo mundo conhece um cara ou uma menina assim, tem sempre um desses ao nosso redor nessa idade. Você já deve ter odiado uma pessoa dessas, ou amado em segredo, ou ainda deve ter copiado cada atitude e corte de cabelo na tentativa de ter "personalidade própria". Talvez tenha até começado a fumar por causa d'O Fulano ou d'A Sicrana. Eu era o amigo d'O Cara, com todos os benefícios que se pode ter disso. E em meio a garotas, festas, bebedeiras escondidas, competições de judô, mais garotas, escola e mais festas, não parecia existir nada errado ou fora do lugar no mundo; as coisas ruins estavam apenas no jornal das 8 ou na casa daquele primo distante. Até aquele dia.
Era mais um treino de judô, e André e eu estávamos ajudando o professor a fazer exercícios com os alunos menores. Chutes, socos, pulos, corridas, cambalhotas, enfim, todo o tipo de golpes de nomes complicados que eu já nem lembro. E todos queriam desafiar André, já que ele era o campeão das regionais pelo terceiro ano consecutivo. Ele lutou e venceu os novatos por umas duas horas seguidas, sem perder a pose, aproveitando cada vitória como uma merecida massagem no ego. E André sabia que estava cansado quando o último da fila pisou no tatame; sabia que suas costas estavam doloridas, e que o gordinho mal-encarado não sabia lutar limpo. Veja bem, não estou julgando-o, eu teria feito o mesmo. Por isso, quando André recebeu aquele chute na barriga que o fez cair e ficar desacordado por meia hora, eu devo ter sido a pessoa que mais sentiu sua dor. Ainda me lembro daquela sensação, queimando a boca do estômago.
Nas primeiras semanas, enquanto a notícia de sua derrota para um menino da sétima série se espalhava pela cidade, André tentava rir do assunto e arranjava mil e umas desculpas, sempre com um risinho nervoso e sua usual ajeitada na franja, jogando a cabeça para o lado. Mas o que só eu sabia era da dor em sua barriga que nunca passava, e que parecia só aumentar. Ele reclamava pouco; achávamos que era apenas mais uma contusão passageira. Mas às vezes, quando André não estava prestando atenção, eu observava seu rosto ficar tenso e preocupado, seu olhar longe e aflito, perdido por vários minutos. Até que ele voltava a si e olhava para mim, e a gente fingia que nada estava acontecendo.
Foi nessa época então que comecei a perceber o que todo mundo tem. Meu pai tinha insônia, coisa que jamais pude imaginar. Talvez a causa disso fossem as contas atrasadas ou as crises de choro na cozinha, de madrugada, enquanto tomava um trago. Até então eu nunca tinha percebido que minha mãe se entupia de antidepressivos. Ainda me lembro dela parada na pia da cozinha, o olhar fixo no céu, hipnotizada; sua boca esboçava um lindo sorriso, com dentes e tudo, e por vezes uma lágrima descia tímida, mal alcançando o lábio. Minha finada mãe... Sentia-me um criminoso reparando nesses momentos de solidão das pessoas. Era angústia, minha primeira vez: algo havia se partido dentro de mim, e eu espiava pela rachadura.
A barriga de André inchava. Sua família pulava de médico em médico na cidade, mas nenhum sabia dar um diagnóstico correto. Eventualmente os rumores começaram a sair dos consultórios e tomaram proporções dramáticas, já que em uma cidadezinha como essa o sigilo médico é tão forte quanto o de um confessionário. André já não saía mais nos finais de semana e mal frequentava a escola. Não só pelas dores terríveis que o faziam se contorcer, mas pelos olhares, as ofensas veladas e o abandono daqueles que sempre o rodearam. Eu sempre fiquei ao seu lado; mesmo nos piores momentos, como quando sua barriga chegou ao tamanho da de uma grávida, cheia de estrias vermelhas e roxas, eu passava dias em sua casa, tentando fazê-lo esquecer daquilo tudo. Chegávamos a dividir a mesma cama, varando a madrugada vendo filmes.
Todo mundo tem segredos. Daqueles desconfortáveis e delicados, que sempre deixam uma reunião de família em silêncio, e que geralmente passam despercebidos para a maioria das pessoas. Como duas meninas da classe, que sempre andavam juntas e se abraçavam e se beijavam demais; ou um garoto da outra turma que não percebia que estava sempre com as coisas dos outros na mochila. E com o tempo as coisas pareceram surgir do nada para a gente, apesar de sempre terem estado debaixo do nosso nariz: a irmã deprimida de meu vizinho fugiu de casa, cansada de ser molestada pelo tio; meu pai brigou com o cunhado, deixando bem claro uma desavença de mais de vinte anos; meu primo Tadeu passou a atender pelo nome de Tanya (com ípsilon); e a morte de parentes e amigos passou a ser mais incompreensível e comum do que nunca. Enfim, coisas que a gente aprende a se acostumar.
Um dia André começou a ter convulsões e apagou. Do hospital da cidade, ele foi levado para a capital, e lá ficou internado por um mês. Mas mesmo depois que ele voltou, seu semblante parecia mais sério, mais maduro. Falava pouco, passou a desinteressar-se por esportes e por festas. Seu círculo de amigos quase se extinguiu, principalmente pelo fato de sua doença nunca ter sido explicada para todo mundo, e até hoje você pode escutar desde câncer e AIDS até desintoxicação de drogas. Mas eu sei o que realmente aconteceu. E se isso não é um desses fatos estranhos que a gente tenta esconder... bem, acho que é pelo menos o tipo de coisa que faz a gente encarar a vida com outros olhos.
Chama-se “Fetus in fetu”. Há menos de 100 casos reconhecidos pela medicina desde o início do século XX. Acontece quando, na formação dos embriões de gêmeos idênticos, um deles acaba ficando dentro do outro, e passa a depender daquele que se desenvolveu para continuar vivendo, mesmo que não se desenvolva totalmente. Os especialistas explicaram que o irmão de André estava em uma cavidade acima do estômago, dependendo dele, mas sem causar danos à sua saúde. O golpe que ele recebeu no judô não só matou o feto, mas também o deslocou, causando uma reação de rejeição do organismo.
É conhecido também como gêmeo parasita.
“É o olho do meu pai”, me disse André uma das últimas vezes que estive em sua casa. Ele segurava o pote de formol contra a luz, e o pequeno feto girava na água oleosa como em uma vitrine. O olho aberto era azul, brilhante, diferente dos olhos verdes de André. O gêmeo era enrugado e tinha todos os membros quase totalmente formados, apesar de ser minúsculo. Seu cabelo era negro e farto. “Minha mãe insistiu em ficar com ele".
Com o tempo, nos tornamos dois completos estranhos. Bem, isso às vezes acontece com amigos de infância, nem todas as boas amizades duram para sempre. É mais umas das coisas que a gente aprende a se acostumar na vida. E mesmo que não seja errado sentir-se triste ao pensar dessa forma, é preciso saber levar, pois sempre que você se pegar acendendo um cigarro depois de tentar parar pela milésima vez, sempre que você esbarrar com O Fulano ou a Sicrana na rua, esse sentimento ruim vai aflorar, e é melhor não lhe dar vazão. É para o nosso próprio bem. Às vezes posso imaginar algum jantar na casa do André onde, em algum determinado momento, todos ficam em silêncio, sem mover os talheres ou as bocas. Ninguém se olha, mas a mesma sensação flutua por todas as mentes. Dura apenas um segundo, talvez menos até. Todos sentem como se estivessem sendo observados por um pequenino olhar, que nunca hesita, descansa ou perdoa.
Se bem que eu acho que todo mundo se sente assim algumas vezes.
Antes de a gente parar de se sentir obrigado a se cumprimentar ou ter que fingir que não viu o outro passar, André e eu saímos de carro algumas vezes para conversar e beber. Eram tentativas de fazer tudo voltar a ser como era antes; conversávamos e ríamos como se nunca tivéssemos nos afastado, e combinávamos de ligar para o outro no dia seguinte. Tudo em vão. Na última vez, era uma noite abafada e sem lua, e a gente bebia na caçamba da minha picape. Eu fiz uma piada que o deixou irritado, a ponto de quebrar a garrafa de cerveja na calçada, mas aí ele riu muito, e eu ri muito também.
- Já pensou que poderiam ser trigêmeos?
Depois, fez-se um silêncio longo e constrangedor. Daí ele me abraçou, e começou a chorar.

quarta-feira, 12 de maio de 2010

Primeiro filho

Alguns segredos são como câncer. Apodrecem-lhe por dentro.
A frase não lhe saía da cabeça, e Catarina não prestava atenção nem na paisagem que passava pela janela, e nem no marido, que falava novamente dos planos e sonhos para o bebê. Sua mente vagava longe de qualquer coisa que lhe dissesse respeito.
-... mas se for mesmo um menino eu não vou querer que ele estude no bairro e... Amor? Catarina? Terra para mamãe...
- Sim, sim, Marcos. Escuta, quando você pode me acompanhar ao doutor Silva?
- Não sei, tenho que ver. Com todos os casos novos no escritório, eu não posso deixar meu chefe na mão. Sabe como é, tenho que justificar a promoção! Mas há algo de errado? Você nunca se importou de ir sozinha. Eu posso falar com...
- Não, não, tudo bem.
O carro entrou na garagem da casa recém-comprada. O bairro não era muito bom, e toda a família tentou persuadi-los a não serem impulsivos, a alugarem um apartamento até o bebê nascer. Mas a energia do casal, tão jovem e entusiasmado a arcar com as escolhas de ter a própria família, logo contagiou todos ao seu redor. Era como sorrir ao ver uma criança dando os primeiros passos. O dinheiro era pouco e os quartos grandes e vazios, mas ambos tinham uma brilhante carreira pela frente - e o bebê veio como uma consequência mais do que natural, a peça mais do que necessária da tapeçaria da vida. “Porque no meu tempo, quando sua avó engravidou...”.
Catarina, agora no oitavo mês, sentia o estômago revirar ao passar pelo portão.
- Pode ir entrando, amor, vou pegar as compras.
- Surpresa! – Catarina quase caiu para trás ao ver os pais em sua sala, os braços abertos, um enorme sorriso em seus rostos e um faixa na parede, "SENHOR, ABENÇOAI ESTA CRIANÇA!". - Ai, querida, eu falei para o seu pai que você não pode se assustar, mas você sabe como ele é...
- Mãe, oi... achei que você ia chegar só semana que vem. – Ela tentava disfarçar o desconforto com um sorriso.
- Esse era o combinado, mas você conhece a sua mãe. Como vai, meu anjo.
- Estou bem, pai.
Marcos entrou na casa com sacolas, cumprimentando os sogros. Mas antes mesmo de colocá-las no chão, pulou para o meio da sala, em direção a um imenso embrulho de presente. – Meu, que é isso? Vocês não precisavam... UAU! Amor, olha, olha!
Catariana viu seu marido pular de felicidade, abrindo a caixa de um carrinho para bebês. Ele alisava a embalagem e olhava dela para a esposa, como um garoto ao ganhar a primeira bicicleta. Ela viu seu olhar brilhando de emoção, tão genuíno e emocionado, tão alegre, tão... apaixonado. Sua garganta apertou com um gosto amargo, os olhos arderam em lágrimas... e Catarina correu para o banheiro.
- Amor...
Ela sentou-se num canto e chorou, com o rosto contra uma toalha. Chorou por um bom tempo, deixando os soluços e as lágrimas lhe aliviarem o peito. Lá fora, um silêncio a aguardava, mas sua mãe já tinha avisado, com um olhar condolente: deixa, é coisa de grávida. Ao levantar-se para lavar o rosto, Catarina fechou com força o espelho do armário, causando uma pequena rachadura no canto esquerdo. O vidro refletira seus olhos cansados; mas agora mostrava sua barriga.

8 da manhã.
Catarina levantou-se, tomou os antidepressivos, lavou o rosto. Sua mãe já estava na cozinha, preparando o café. O pai partira de madrugada para evitar o trânsito, e ela não parava de falar e reclamar. - Mas não se preocupe querida, ele volta assim que o bebê nascer.
O bebê. Catarina então acordou.
Marcos passou correndo pelas duas, engolindo uma xícara de café e uma bolacha. Beijou a esposa na testa e já estava na porta quando voltou para pegar a maleta.
- Ai, é uma pena o que aconteceu com a cadelinha, a... como era o nome dela mesmo? A Lica, isso, Lica! Ia ser tão bonito as duas mulheres da casa com seus filhinhos!
- Dona Irene! Por favor, né... - advertiu Marcos.
- Só comentei, poxa! É a natureza. Tem cachorros que fazem isso com os filhotes quando eles nascem fraquinhos, ou quando elas estão doentes. Não é crueldade não! E ela deve ter fugido porque os animais...
- Não foi nada bonito ter que dar um jeito naqueles filhotinhos todos... argh! Deixa pra lá! Ainda bem que você não viu nada, né amor? Bom, tenho que ir. Até!
Catarina olhava para o quintal, as folhas secas vindas dos vizinhos sobre a grama e sobre o canteiro de flores. Ela havia se esquecido de regá-las, e todas pareciam tão exaustas quando ela. Porém não tinham os pés inchados, dores pelo corpo, quedas intermináveis de cabelo, estrias, nem consciência do quão rápido o tempo passava, não tinham botões; já estavam secas demais. - Algumas fêmeas não nascem para serem mães, eu acho. – E levantou-se da mesa.
Sentada no futuro quarto de seu primeiro filho, a sombra do móbile de cavalos passava por seu rosto inexpressivo, enquanto suas mãos dobravam repetidamente as roupas que a criança já havia ganho - quase todas verdes ou amarelas, já que o sexo seria surpresa. “O que estou fazendo com o Marcos? Como explicar para ele? Meu Deus... eu o amo tanto, tanto! Tudo era tão lindo. Ele é tão lindo. Deixei que isso fosse longe demais. Acho que ele já nem me reconhece. Eu não me reconheço. Não carregando esse... esse...”. Sua mãe entrou no quarto e sentou-se ao seu lado.
- Me perdoa mãe, me perdoa? – Catarina a abraçou, começou a chorar e adormeceu.

Quando Marcos chegou à noite, Catarina parecia mais animada, e o marido gostou de vê-la falante e agitada na cozinha com dona Irene.
- Filha, só esse copo de vinho. Vocês preferem carne vermelha ou branca?
- Ahn... é... nós estamos evitando comer carne, dona Irene. - Disse Marcos sem jeito, e apontou com os olhos para Catarina.
- Catarina! Onde já se viu! Você está...
- Eu sei! – gritou Catarina, para a surpresa de ambos. – Mas desde o começo do mês não posso nem sentir o cheiro de carne. Meu estômago embrulha, tenho ânsias que até fazem minha barriga doer! E me vem um gosto estranho na boca, como se fosse... como se fosse... ai, olha, só de falar. - ela pôs a mão na protuberante barriga e foi para o sofá. O marido e a sogra se entreolharam, mas Marcos desviou o olhar. Ele tentava disfarçar a todo custo.
Catarina acordou assustada no meio da noite. Estava ensopada de suor, sentada em um canto do quarto. Não sabia como havia chegado ali. Ela então se acalmou, controlando a respiração, enquanto seus olhos se acostumavam com a escuridão. Assim, foi percebendo lentamente os machucados nas palmas das mãos, as marcas das próprias unhas. Catarina voltou em silêncio para a cama, mas não percebeu os pés sujos de terra. Nem que Marcos estava acordado, observando-a aterrorizado.

O leite vazava, criando manchas escuras e redondas em sua camiseta. Catarina olhava seu reflexo na janela, a repulsa e a culpa enrijecendo-lhe os músculos quase em espasmo. Ao ir para a cozinha, Marcos apressou-se a tirar o saco de lixo da varanda do quintal, jogando-o no porta-malas do carro. Era sábado. Sua mãe estava no portão, conversando com as vizinhas.
- Amor, vou levar o lixo naquele terreno perto da rodovia, tudo bem? Qualquer coisa me...
- Ok. – Catarina parou na porta, observando o quintal limpo, a área recém-lavada. Marcos a observou de costas, tão linda e melancólica. Um arrepio lhe fez suspirar, quieto, sem querer aceitar os pensamentos que lhe inundavam a mente dia e noite. Ele tentaria de tudo para ajudar sua esposa, e só havia um lugar por onde ele poderia começar. Pegou as chaves e partiu.
Catarina tirou as sandálias e caminhou pelo quintal, olhando para o céu azul impecável, sem nuvens, sentindo a grama úmida. A casinha da cachorra parecia dez anos mais velha, pela poeira e as tigelas secas sob o sol, em um canto do terreno. Ela se aproximou, passando a mão sobre a fina camada de pó, fazendo pequenos desenhos com as pontas dos dedos - até que um prego cortou-lhe o indicador. Catarina, por instinto, levou a mão à boca, e o gosto de sangue lhe fez enjoar e vomitar. Ela curvou-se e ali, caída de quatro, a mãe sentiu o olhar ser atraído para o interior escuro da casinha, tão quente e próximo de seu rosto. Ela se levantou lentamente e tirou-a do lugar. Começou então a cavar, sem saber o que realmente estava fazendo ou por que. Cavou por vários minutos o quadrado de terra seca e fofa com as mãos trêmulas, sua ansiedade e medo cada vez maiores, até ver a ponta de um corrente. Puxou-a, sentindo o peso na outra ponta revolver a terra e finalmente se expor para a claridade do dia. Catarina caiu para trás ao ver o pequeno cadáver em avançada decomposição, gritando de horror e cobrindo os olhos. Em sua mente as imagens e sensações vinham como flashes violentos, mas claros: a mordaça... a faca... os olhos tristes da cadela... a corrente envolta de seu corpo ainda morno... os frágeis filhotes ganindo... suas peles macias e tenras... o gosto da carne.
O corpo da grávida fez um violento espasmo ficou quieto. Ela então se levantou calmamente, o olhar vazio e inexpressivo como o de uma máscara. Caminhou até a cozinha, pegou o frasco de álcool do armário e a caixa de fósforos. Despejou metodicamente o líquido sobre os sofás, o tapete e o carrinho de bebê, que estava bem no centro da sala. Afastou-se, acendeu um palito e caminhou para a frente da casa.
- Ai meu Senhor, fogo! Catarina!– Dona Irene correu para casa em pânico ao perceber a fumaça, as vizinhas gritando por ajuda. Ela abraçou a filha e correu para a casa da frente, enquanto a rua se enchia de curiosos e pessoas tentando ajudar. Logo uma sirene soou virando a esquina. A fumaça preta fedia, e envolvia a todos como uma densa neblina.

Com o rosto enterrado entre as mãos, Marcos tentava se recompor e continuar a falar. Respirou fundo, encarando o doutor Silva. - Cada vez que eu acordo com ela gritando feito uma selvagem e se debatendo, eu desabo, eu morro! Mas tento ser forte e ajudá-la, só que nada mais adianta! Ela nunca se lembra. Às vezes eu a pego com o olhar vago, perdido, e eu juro que ela pode ficar assim por horas a fio! E... meu Deus.... e...
- Algum incidente como o dos filhotes voltou a ocorrer? – perguntou o médico.
- Várias vezes. Quando consigo dormir, tenho que acordar mais cedo para tentar limpar a sujeira que ela faz de noite. Ontem foi outro gato... o senhor deveria ter visto o estado que, que... – e desabou a chorar, o corpo tremendo, o rosto entre as mãos.
Doutor Silva deixou o rapaz acalmar-se, procurando as palavras:
- Tudo indica que Catarina desenvolveu um caso de TDI - Transtorno Dissociativo de Identidade, agravado ainda mais pela depressão que ela vem sofrendo. Nesse estado alterado que se manifesta de noite, ela é outra pessoa, um indivíduo agressivo e com tendências psicóticas que dá vazão aos sentimentos que ela vem suprimido e lidado sozinha. Mas não é algo raro em casos como o de sua esposa.
- Suprimido? Mas eu tenho ajudado ela em tudo e...
- Eu descobri que ela sequer foi à psicóloga que eu indiquei a ela. Em sua atual condição, é imprescindível acompanhamento psicológico. É um fardo muito pesado e traumático para uma mulher carregar um filho morto. Mas felizmente esses três meses estão passando...
Marcos empalideceu e não ouviu mais nada.
Doutor Silva percebeu no longo silêncio que se seguiu o que estava acontecendo: Catarina não contara ao marido. A situação era pior do que ele imaginava.
- Marcos, eu preciso ver Catarina imediatamente. Ela pode representar um perigo não só para si mesma, como para qualquer outra pessoa.
Seu telefone tocou. Era sua sogra.

Dona Irene desligou o celular e foi consolar a filha desolada, que olhava para a casa.
- Calma filha, vai ficar tudo bem. Os danos não foram grandes! Logo estará tudo pronto para o bebê de novo!
- Mãe... o que aconteceu? Eu... eu...
- Calma, querida. Ninguém se machucou, graças a Deus. Olha, vou com Fátima pegar algumas roupas para você, é logo ali na esquina, volto logo, e o Marcos já está chegando. Você pode segurar o Julinho? Olha que coisa fofa de neném!
A vizinha deixou o filho no colo de Catarina, que observou as duas sumirem pelo portão. O bebê loiro e gorducho chupava o dedo calmamente em seus braços.
“Era um menino”, pensou Catarina. “O tempo está acabando, meu Deus! Como vou contar para todo mundo, para o Marcos! Eu falhei, eu não pude lhe dar um filho, dar um filho pro meu amor... agora ele é apenas um pequenino cadáver apodrecendo dentro de mim... como um câncer.... eu falhei ... o Marcos nunca vai me perdoar... um câncer... a cadela aqui falhou! Vou parir um primogênito natimorto! Um corpo bastardo em decomposição! Eu falhei, a cadela falhou Marcos, sua cadela falhou!...”.
As lágrimas desciam por seu rosto imóvel. De repente Catarina fechou os olhos e sua cabeça pendeu para frente. Ela então se levantou de vagar, com uma expressão vazia e fria nos olhos negros. Tateou o bolso da frente da calça, reconhecendo a caixa de fósforos. Olhou para os lados, viu a rua quase vazia. Olhou finalmente para a criança, que sorria para ela, mexendo as mãozinhas.
A grávida atravessou a rua com o bebê em seus braços, passou pela fachada chamuscada e, calmamente, atravessou a sala destruída e foi para o quintal.

quinta-feira, 11 de março de 2010

"O lado sombrio - 13 contos imortais"

Galera, aí vai o link do vídeo-propaganda da coletânea independente de contos de terror e ficção científica da qual eu estou participando!

Cliquem aqui!

Vamos dar uma força para a literatura fantástica brasileira! - e, de quebra, para escritores iniciantes!
Mais detalhes virão...


(ps: quem souber colocar aquela janelinha de vídeo do Youtube no blog vai ganhar um exemplar de graça!

Tá, num vai. Só um agradecimento e uma cerveja.)

sábado, 26 de dezembro de 2009

FIM DA VIAGEM.

Então, acabou.
É, sem Nova York.
Por uma cagada que, não sei se fui eu ou o site pelo qual eu comprei a passagem ou, ainda a empresa aérea, de Pittsburgh para NY tive que desembolsar em torno de $340 dólares, senão ficaria lá no aeroporto até 23 de Dezembro de 2010 – a data que saiu errado em um dos recibos.
Passei horas num fila gigantesca para trocar o dia da minha volta (fiquei praticamente sem grana para 14 dias em NY), uma noite em um hotel barato à la "Psicose" e a véspera de Natal inteira no aeroporto JFK. E voltei.
Voltei mesmo com meus pais ficando chateados por eu estar vindo antes, sem conhecer a Grande Maçã. “Fica, a gente manda dinheiro” eles falaram, mas depois de jogar fora quase 700 Reais por um descuido que muito provavelmente foi meu, não tenho cara nem coragem pra ficar. Até tentei, mas já não dava mais para desfazer a troca – não sem desembolsar mais uns $250 dólares. Sei que eles até venderiam meu irmão menor para me mandar dinheiro para terminar a viagem como eu havia planejado, mas eu não tenho mais idade nem cara-de-pau de fazer isso.
Foi um semestre incrível e indescritível em Louisville, contando ainda com uma viagem para Chicago e para Pittsburgh. Mas agora me parece que eu nem saí da imigração; só consigo pensar na cagada que eu fiz e estraguei tudo.
Quem sabe mais pra frente eu consiga respirar e ver como foi tudo o que passou de fato. Porque agora eu estou na pura merda. Mas eu sei que isso passa. Smepre passa.

Enfim, feliz Ano Novo.

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Pittsburgh!

Depois de passar meu último dia em Louisville sozinho em um prédio de 11 andares e 176 quartos, sem nem ao menos os seguranças, embarquei para minhas viagens finais na terra do Tio Obama. Escrevo agora de Pittsburgh.

1º dia: O primeiro vôo até Milwalkee foi tranqüilo, comigo sentado em um avião pequeno (3 fileiras de lugares – enfim, vôo local de menos de 2 horas) rodeado de militares, indo para casa no fim-de-semana. Diferente das minhas impressões, eles são muito gente boa! O do meu lado (com um coturno muito foda, marrom claro "areia-do-Iraque") estava se cagando de medo.
Na hora de embarcar na conexão, eu fui direto pegar as minhas malas antes de ir para o outro avião, PORÉM não estava escrito em nenhum lugar da passagem que eu não tinha que fazer isso. Resultado: quando descobri que as malas iam direto, eu tinha 10 minutos para embarcar.
Do outro lado do aeroporto.
Olha a Bonaldisse: Imagina eu correndo só de meia pelo aeroporto, com o tênis em uma mão, o casaco e o laptop em outra e a mochila aberta num ombro (tive que tirar as coisas pra passar no check-In). Chego morto no embarque:
EU: Pitts...burgh.... (respiração de cachorro asmático).
Moça: You made it. (“Você conseguiu”).
Só que eu entendi que o avião já tinha partido (tipo “it made it”). EU: NOOOO!
Moça: Não, você conseguiu. O vôo terá um atraso de 20 minutos.
Aí eu me joguei no chão, vestindo o tênis, sem fõlego, porém feliz. E o povo à minha volta rachando o bico, claro.

2º dia: Bruce, o cara do CouchSurfing (já falei que essa é a maneira mais “mochila-nas-costas" e foda de viajar? Fora que é mais barato que albergue – que não é barato porra nehuma) que está me hospedando, é um aventureiro. Com uns 40 e tanto anos, já foi acampar em lugares como a Nova Zelândia e já morou com nativos norte-americanos (ele é do Arizona). Afixionado por esportes, apesar de não dispensar o cigarro. Hoje ele me levou, junto com um amigo e as filhas desse cara, para descer uma colina na neve! E ele tem um daqueles carrinhos antigos, tipo dos desenhos do Charlie Brown! Estava -4 graus, mas por incrível que pareça, estava de boa, já não tinha vento – e eu estava com camadas e camadas de roupas impermeáveis.
Meu cabelo, preso num rabo-de-cavalo, congelou.
E Neve.
Muita neve.
MUITA. NEVE. Branquinha, macia, dá dó de pisar! Ela forma uns montes muito bonitos, absurdamente brancos e lisinhos! Mas é fria e... bem, molhada né! E levar tombos e mais tombos descendo de tobogã num ajuda muito!
Neve congela traseiros.
O dia terminou com uma ida a um Sport Bar para comer asinhas de frango (prato típico de qualquer bar americano) e umas cervejas.

3º dia: Como o Bruce é sócio dos museus daqui, ele me levou para conhecer de GRAÇA (do contrário seria 15 dólares) o Museu do Andy Warhol.
Wow.
7 andares com obras não só do pai da Pop Art, mas também exposições de pessoas como Shepard Fairley, artista plástico que fez trabalhos como o retrato do Obama para a campanha dele (aquele que está escrito "HOPE", sabe ?) , capas de discos de pessoas como Black Eyed Peas e Led Zeppelin, e cartazes de filmes, como o do "Johnny e June". E tinha também uma exposição chamada "SUPER-TRASH", com pôsteres de filmes trash (não só de terror) e underground dos anos Nem 60, 70 e 80. Nem gostei...
Depois fui para o Carnegie Museum de História Natural, com exposições de dinossauros, baleias, cultura egípcia e nativa norte-americana, bem como da vida natural em geral. Novamente de graça! (já falei que o CouchSurfing é muito legal?).
De tarde, o combinado era eu voltar para casa de busão, enquanto o Bruce estava em um jogo de futebol americano - uma final, imagine como estava a cidade. Depois uma amiga dele iria me pegar e levar para um jantar do grupo de Couchsurfers daqui de Pitts. Muito bem, lá fui eu no ponto, peguei o bus certinho, pedi para a motorista parar no local, expliquei que não sou daqui blábláblá... mas a desgraçada esqueceu de me avisar que não ia até o meu ponto, que ia parar de rodar antes! Resultado: Fiquei 40 minutos na frente de um shopping, esperando o próximo busão passar. Foi só no jantar, enquanto falávamos de filmes de terror, foi que me disseram que aquele mesmo shopping onde eu fiquei congelando a cara foi onde o George Romero filmou sua obra-prima de Zumbis, “Madrugada dos Mortos” (o original de 1975)!!!
Aliás, o jantar foi incrível. O dono da casa é colecionador de jogos de tabuleiro e coisas do gênero (ele tem mais de 1000 jogos no porão dele, e uma sala só de coisas de Halloween!), e a árvore de natal dele estava invertida, parafusada no teto (!?). Uma das outras convidadas é Chefe de cozinha de uma família rica, e trouxe umas "sobras" para a festa, como ovos de codorna com caviar, carneiro enrolado no bacon e outras guloseismas; outra é professora de dança do ventre - enfim, um grupo bem heterogêneo de pessoas do bem, divertidas e interessadas em se divertirem e conhecerem pessoas novas. Já falei que o CouchSurfing é MUITO legal? As histórias do pessoal - mesmo as ruins - sobre viagens e hóspedes foram o melhor da noite. Teve até um jogo de troca de presentes muito comum aqui nos States, chamado “White Elephant” (elefante branco), onde você leva algo bizarro que está encostado na sua casa e põem debaixo da árvore. O lance é que você nunca sabe o que vai receber. Eu ganhei duas facas para bolo de casamento, com o Gaguinho e a Petúnia, da Turma do Pernalonga, nos cabos (!!?).

4º Dia: Bruce me levou para uma caminhada básica com Benny, o cachorro de um amigo, em um parque perto de sua casa - que na verdade fica em um condado de Pitts, chamado Churchill.
6 quilômetros (em torno de 4 milhas). Na neve.
Com botas pesadíssimas que ele me emprestou – senão meu pé teria congelado. Foi muito lindo e divertido – sim, um fumante pode andar tudo isso em condições ruins e achar a experiência legal! -, apesar de meus calcanhares estarem quase em carne viva por causa das botas.

5° Dia: Em meu último dia em Pitts, o Bruce me levou para conhecer o Carnegie Museum de Artes. existem 4 Carnegie Museums aqui em Pitts; eu só não fui no de ciências. A coleção deles é bem variada, e cobre desde artes mais antigas como esculturas egípcias, como até video-instalações de artistas contemporâneos. Novamente de graça, claro.
Almoçamos no Primanti Brothers, um bar/lanchonete super-tradicional da cidade, e que possui até algumas filiais. Nada como sentar no balcão, pedir uma cerveja e um dos sanduíches tradicionais do local, cuja peculiaridade é ter um monte de batatas fritas bem no meio – é, isso mesmo.
Depois fomos conhecer a universidade de Pittsburgh, um prédio imenso que parece mais uma catedral. Além de ser aberta ao público nas férias, a universidade possui salas de aula especiais, decoradas como salas de diferentes países: Japão, Líbano, Escócia, Rússia, Israel.... claro, não tinha nada da América do Sul. Conhecemos depois a igreja da Universidade, a Heinz Cathedral. Eu realmente não gosto de ver locais como igrejas, parques e museus tradicionais, mas quando eles valem à pena e não são locais manjados para turistas (você conhece mais alguém que foi para Pittsburgh com mochila nas costas?), não vejo problemas. O dia terminou com mais uma caminhada com Benny, só que desta vez bem mais leve. Demos uma volta no cemitério da cidade, que tem uma vista linda e muita história.
Tchau Pitts.
Ô cidade linda! Cidade grande tradicionalmente americana, sem "armadilhas para turistas".

Próxima parada: Cidade de Nova York...