quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Aos meus 25 anos

Passo as últimas horas dos meus primeiros 24 anos sofrendo e reclamando das coisas de sempre, dos males do meu 1/4 de século.

Da minha ansiedade, que me faz trocar os pés pelas mãos, que me faz enfiar o nariz aonde não era chamado - e que já enfiou o que não era chamado no meu nariz, que enche meus pulmões de fumaça, que me faz verter (sim, "verter", pois sou ultrarromântico, no sentido mais brega e obsessivo da palavra) litros de qualquer coisa goela a baixo, tomar porres e porres homéricos e as melhores das piores decisões possíveis. Que transforma qualquer gota em um copo de água, depois em uma tempestade, e depois em um dilúvio, e depois eu preciso recriar o mundo.

Da minha carência, que me faz ver príncipes encantados em todas as esquinas - e em qual esquina não tem um boteco e um príncipe, que me faz acreditar e viver as mais lindas e traiçoeiras fantasias, que me faz chorar de ansiedade, que me deixa ansioso por chorar de verdade por alguém, que me faz sentir o pai de todas as aberrações por nunca ter namorado nesses anos todos ("Observem, respeitável público, enquanto o homem mais carente do mundo embarca em mais uma fantasia autodestrutiva de carência e autopiedade! Oh, o Horror, o Horror! Só R$2,50!). Minha necessidade de sumir do mundo ao mesmo tempo que tento chamar atenção até dos mortos, e eu espero que você aí - é, você mesmo, sabe quem é - não se assuste e suma ou me queira morto ao ler isso. Por que eu voltaria.

Do meu coração, esse nariz de pugilista, cansado, deformado e arrebentado, vertendo (aí, não falei?) sangue ao final da luta, se contentando com uma cerveja barata e uma puta de bar.

Da minha insegurança, que junto com tudo isso me faz ter as melhores ideias imagináveis - para então perdê-las pela janela do ônibus, em folhas jogadas pela escrivaninha, em guardanapos rabiscados, e até em mensagens que um dia enviei para alguém achando que era meu outro número. Sou desses.

Sou desses, e sempre fui. Por isso, é com um sorriso amargo que celebro essa data querida - sim, com muitas felicidades, mas é óbvio que eu jamais iria agradecer pela minha família e meus amigos, esses portos seguros que me fazem seguir em frente. Também sou desses que não sabem lidar com as boas emoções.

E aí cito o que uma amiga já tuitou: "eu queria pelo menos ter uma pequena previsão de quando eu vou parar de fazer bosta".

Enquanto isso, vou ao posto neste exato momento, que eu mereço uma Heinecken. Cheers, cheers for fears, cheers in heaven!

sexta-feira, 13 de maio de 2011

Ecos


“As batidas continuam. Elas ecoam pelo apartamento inteiro, sem ritmo definido, às vezes fracas, às vezes fortes... Quando eu acho que elas finalmente terminaram, o som surdo e abafado quebra o silêncio e eu desperto, assustada, olhando para as luzes que entram e se refletem no teto. O batente dessa janela velha está tão torto que quase congelo durante a noite, com o vento que entra pela fresta sempre aberta. Não me lembro quando foi última noite tranquila de sono que tive, ou do último dia inteiro que vivi conscientemente... Antes eu achava que as batidas vinham do vizinho da esquerda, depois tive certeza que eram do da direita; hoje, já nem sei mais de onde elas podem vir. É como se elas não tivessem mais um ponto único de contato, como se...”

Marina fechou o diário e tomou outro gole do café. Esfregou os olhos e olhou para o relógio: duas horas já haviam passado, em questão de segundos. "Foco, foco, foco..." ela repetia mentalmente como um mantra, olhando para a tela do computador. Mas logo seu olhar se desviava para a janela, por onde ela assistia a vida se arrastar.

18h30. Mais um rosto cansado na multidão voltando para casa. Marina caminhava mecanicamente pelos corredores do metrô, seguindo o fluxo. No vagão, espremida em um canto contra a janela, ela observava seu reflexo, no meio de muitos outros. As luzes do túnel embaralhavam sua vista cansada. “Meu Deus, que olheiras são essas... esse rosto não pode ser meu..” Ela fechou os olhos. Ao voltar a abri-los, uma multidão de rostos diferentes lhe encarava de volta. A caminhada de volta para casa sempre era um alívio, mas ao se aproximar de seu prédio, um arrepio lhe lembrava daquele estranho barulho que lhe atormentava há dias. O zelador não retornara suas mensagens, muito menos os vizinhos. Ela sentou-se na mureta da garagem e fumou um cigarro, absorta pelo zunido do elevador. “Por favor, esta noite não, por favor..."

Mas aquela noite foi como as outras anteriores, e o dia seguinte também imitou os tantos outros, e a noite seguinte também, e o dia depois do outro. A sensação de repetição e de impotência inundava lentamente a vida da jovem de 24 anos, uma força que lhe sugava as energias e tornavam suas vontades, alegrias e sonhos parte de algo muito remoto, quase como a conversa de um desconhecido no ônibus. Ela sentava no parapeito da janela e via o sol nascer quase todos os dias, rabiscando em seu diário. Os cabelos escuros e lisos lhe caíam pelos ombros, emoldurando seu rosto cada vez mais pálido e sem expressão. As lágrimas às vezes lhe inundavam os olhos castanhos, e ela se entregava ao saudosismo e ao desespero, abraçando os joelhos contra o corpo, chorando baixinho e se lembrando da família e dos amigos que deixara para trás em busca de uma vida melhor, de suas ambições; cada sonho tem seu preço – e às vezes a vida castiga dando aquilo que se deseja. “Era para ser assim mesmo? Onde foram parar...” Mas as palavras já não saíam mais como deveriam; elas também começavam a soar as mesmas, como seus dias.

Foi então que uma estranha sensação começou a lhe incomodar. De início era apenas uma má impressão, como quando se está em uma sala lotada e temos a certeza de que alguém está nos encarando. Mas como o passar do tempo, aquela sensação foi se tornando cada vez mais constante e forte. Era cada vez mais comum Marina sair de seu estado sonâmbulo, como que acordada bruscamente, e olhar apreensiva para trás ou para o lado, respirando com dificuldade.

- Tinha alguém aqui por perto, querendo falar comigo? Nossa, eu ando tão desligada ultimamente, não tenho dormido muito bem... eu jurava que tinha alguém por aqui, sabe? - Mas seus colegas de trabalho apenas olhavam-na e desviavam o olhar, frios, antes de especularem se seu “estado ausente” era por causa de álcool ou pó.

A cada esquina, a cada quarteirão, a cada estação de metro; cada vez que ela saía do elevador, entrava em um bar ou em uma livraria; ao tentar acordar e ao tentar dormir. Marina olhava furtivamente para os lados procurando reconhecer um olhar ou descobrir a razão daquela angústia obsessiva que lhe esmagava os pensamentos. Via risos, olhares de soslaio, vultos irreconhecíveis; sentia cheiros estranhos e vertigens que lhe roubavam os sentidos – e acabava perdida no fim da tarde, olhando o entardecer como se rebobinasse seu próprio filme.

O acontecimento que finalmente colocou sua saúde mental em cheque ocorreu da maneira mais casual possível – afinal, os absurdos da vida sempre vêm camuflados nas mais corriqueiras banalidades. Marina andava pelo escritório durante um intervalo, bebendo seu café, quando na sala de recepção uma imagem no visor das câmeras de segurança lhe chamou a atenção. Intrigada com a imagem, ela se aproximou da tela em preto-e-branco. Embora achasse que a semelhança, ainda que assustadora, fosse mera coincidência, a jovem estremeceu e se afastou do visor, tentando colocar os pensamentos em ordem. Porque não fazia nenhum sentido a mulher que saía pela recepção com uma escada debaixo do braço ser exatamente igual a ela.

Exatamente.

Naquela noite (ou na seguinte?), Marina tremia debaixo dos cobertores, o olhar vidrado num ponto perdido no teto. As batidas ecoavam como marteladas vindas das paredes, do chão e do teto, mais fortes do que nunca; a vibração chegava até seu corpo entupindo-lhe os ouvidos e percorrendo cada músculo com um espasmo. As paredes, lambidas pelas luzes que vinham do mundo exterior, pareciam adquirir vida e movimentar-se, pulsando no ritmo descompassado dos golpes. Ela tinha febre. Sua visão ficava cada vez mais turva, o teto que já era alto parecia tomar proporções gigantescas, perdendo-se para sempre no vazio. Então, algumas sombras lhe chamaram atenção vindas da sala. Fraca e trêmula, Marina tentou levantar-se da cama, porém caiu de joelhos, segurando-se na escrivaninha à sua frente. Aos poucos ela foi tateando e se segurando pelas paredes, até chegar ao pequeno cômodo da frente. Do lado de fora de seu apartamento, prostrava-se uma figura que andava de um lado para o outro, parando algumas vezes para esmurrar sua porta.

- Por favor... por favor... eu não... – Marina gemia com todas as forças que lhe restavam, mas era inútil. Os sons arranham sua garganta e morria como sussurros na sala que pulsava e parecia lhe engolir. E antes que pudesse abrir a porta, a garota deixou-se cair, derrotada. A última coisa que viu antes de desmaiar foram as sombras vindas por debaixo da porta, enquanto a pessoa ia embora.

Na noite seguinte, as batidas desaparecem.

Mesmo que isso pudesse significar a volta da paz para sua vida, Marina ainda sentia que algo estava errado, que não estava conseguindo entender a realidade em que se encontrava. A sensação de estar sendo observada ainda não passara totalmente; e ela ainda não descobrira quem estivera em seu apartamento naquela noite. Alguns dias tranquilos seguiram-se de noites calmas e silenciosas, e Marina aos poucos recobrava o controle de seus sentimentos. Em um fim de tarde, pouco antes do fim do expediente, ela lembrou-se de seu diário, há muito esquecido em uma gaveta de sua mesa. Ao abri-lo, encontrou o pequeno caderno totalmente rabiscado, em uma letra ilegível e páginas rasgadas soltas. Marina não conseguia entender nada do que estava escrito, tamanho era o emaranhado de letras e estranhos desenhos, feitos com tanta força que páginas inteiras eram atravessadas por sulcos feitos pelo lápis. E em uma das últimas páginas, ela encontrou a anotação: "não se esquecer de devolver a escada".

Marina sentiu um arrepio correr por sua espinha. Pegou sua bolsa, seu casaco e correu em direção ao elevador. “A janela, a janela! Como eu não reparei que ela foi consertada!? Meu Deus, não fui eu... não pode ter sido! Não...” Porém, algo a paralisou. Após uma fração de segundos sua mente entendeu o que sua visão encarava, como que hipnotizada, no visor da câmera de segurança. O preto-e-branco e as interferências que atravessavam a imagem tornavam ainda mais insanos e fantasmagóricos os olhos que lhe encaravam de volta, como um estático e destorcido reflexo de seus próprios olhos.

Olhos exatamente iguais aos seus.

Ela correu para as escadas, determinada a finalmente descobrir quem era aquela pessoa. Ao chegar à recepção, viu a estranha figura virar a esquina e se misturar à multidão na rua. Esbarrando e até derrubando pessoas, Marina seguiu aquela pessoa, sem ter certeza se estava atrás da figura correta – mas ao mesmo tempo, com uma familiar certeza de onde precisava ir. Depois de intensa corrida labiríntica entre carros e pessoas, seu pressentimento confirmou-se ao se deparar com a entrada de seu prédio – e aquela estranha entrando no elevador. Exausta, ela correu o suficiente para ver pela janela do elevador que subia aqueles olhos terrivelmente negros e estáticos, mas que pareciam sorrir.

Ao terminar de subir as escadas de seu prédio, as luzes automáticas se ascenderam, e a jovem encontrou-se sozinha no corredor de seu apartamento. Lentamente, ela se aproximou da porta e colocou a chave na fechadura. O barulho ecoou por todo o corredor, mais alto do que ela imaginara. Porém, a chave não funcionava. Não dava voltas. Marina andou de um lado para o outro, esfregando o rosto, assustada. Suas mãos tremiam, e nada mais fazia sentido. "Não é possível... não é possível... eu não posso estar ficando louca.... as batidas pararam...” E em um aceso de raiva, a jovem esmurrou a porta, fechando os olhos e rangendo os dentes, até suas mãos arderem e ela mal conseguir abri-las. Porém, encarando seu desespero, ela suspirou profundamente, e pôs-se a caminhar para longe dali.

Foi então que ela ouviu o trinco destravar-se, talvez movido pela batidas e socos.

Marina entrou no quarto escuro, e por vários minutos ela não acreditou no que via. As mãos trêmulas cobriram sua boca, e ela se abaixou lentamente, sentindo o coração acelerar cada vez mais. Moscas cobriam o corpo que jazia ali no chão da sua sala, caído de bruços. Um dos braços se esticava em direção à porta. Marina sentou-se no chão, respirando com dificuldades por causa do cheiro forte que empesteava o apartamento, e viu uma escada caída em um canto. Ela então reparou em um pedaço de papel esmagado entre os dedos da mão que jamais alcançara o trinco. Em uma das páginas de seu diário, lia-se ““As batidas continuam. Elas ecoam pelo apartamento inteiro, sem ritmo definido, às vezes fracas, às vezes fortes... Quando eu acho que elas finalmente terminaram, o som surdo e abafado quebra o silêncio e eu desperto, assustada, olhando para as luzes que entram e se refletem no teto. O batente dessa janela velha está tão torto que quase congelo durante a noite, com o vento que entra pela fresta sempre aberta. Não me lembro quando foi última noite tranquila de sono que tive, ou do último dia inteiro que vivi conscientemente... Antes eu achava que as batidas vinham do vizinho da esquerda, depois tive certeza que eram do da direita; hoje, já nem sei mais de onde elas podem vir. É como se elas não tivessem mais um ponto único de contato, como se...”

As lágrimas desceram quentes, mas um estranho sentimento de calma e leveza as acompanhava. Era como ela entendesse porque não se sentia uma pessoa inteira nos últimos tempos; finalmente, sentia como se acordasse de um longo pesadelo – e voltava a encarar a realidade. Marina então abraçou aquela estranha e familiar figura.

As luzes do corredor se apagaram.



Conto inspirado em tweets (os links deles estão nos comentários) da @littlemarininha! Especial para a sexta-feira 13! (tá, como se eu escrevesse coisas fora desses temas...)

terça-feira, 19 de abril de 2011

Pânico 4 (resenha)

Sequência nostálgica com jeito de refilmagem peca por excesso de metalinguagem e não deixa espaço para material original próprio


O diretor Wes Craven abre o novo capítulo da cine-série “Pânico” reconhecendo e satirizando o que qualquer crítico ou fã da trilogia original possa reclamar a respeito deste longa: exploração de fórmulas e ideias gastas, sequência oportunista e uso de metalinguagem que já não é novidade para ninguém em um gênero já decadente. Assim Craven tenta (re)fazer o que o primeiro "Pânico" fez há mais de uma década - um bem humorado comentário sobre os filmes de terror atuais, além de dar continuidade e inovar o gênero. Pena que o filme falhe nesta segunda tarefa.

A grande sacada do filme de 1996 era encher a trama com referências a outros longas do gênero, que faziam os fãs de filmes de terror sorrirem de felicidade ao verem sua paixão reconhecida e usada na tela grande, definir os clichês e regras dos filmes de serial killers e, ainda assim, fazer um “ teen terror” original. Essa metalinguagem não era comum na época, e o filme em si abriu caminho para uma nova leva de assassinos em série matadores de adolescentes no cinema. Mas os tempos e principalmente o cinema são outros em 2011. Duas sequências, o declínio do "terror adolescente", a ascensão do "torture porn" e o reinado das refilmagens fazem de "Pânico 4" um produto nostálgico e um prato cheio para Craven e o roteirista Kevin Willamson (ambos mentores da trilogia original) reavaliarem o terror atual – porém, a dupla foca demais nas referências e nas auto-referências e se esquece de criar uma trama própria mais consistente.

O longa mostra Sidney Prescott (Neve Campbell) voltando para a cidade de Woodsboro depois de mais de uma década após os assassinatos, para o lançamento de seu livro. Lá ela reencontra os amigos e sobreviventes Dewey (David Arquette) e Gale (Courtney Cox), mas seu retorno traz de volta também o assassino mascarado (com a famosa máscara de “ghostface”) que vai aterrorizar não só Sidney, mas sua prima Jill (Emma roberts) e seus amigos. Enfim, com novas caras adolescentes e mais sangue e mortes que os anteriores (para a plateia que se acostumou com “jogos Mortais” isso nunca é o suficiente), não há uma cena sequer em “Pânico 4" que não faça referência aos filmes de terror dos últimos anos ou à trilogia original. Há a discussão não muito clara das novas regras do gênero – a regra é não seguir as regras, e o negócio é fazer uma refilmagem que supere o original em todos os sentidos, mas esta acaba não deixando espaço para a construção da tensão, da trama em si e principalmente dos novos personagens - a motivação do(s) assassino(s) (será apenas um? serão dois como nos anteriores? As regras mudam mesmo?) é totalmente a esmo e sem fundamento, um ponto muito fraco em relação aos outros da trilogia. E é ótimo ver Dewey e Gale tentando resolver o mistério como antigamente, assim como Sidney é o único personagem com profundidade e verdadeira conexão com os longas originais. Porém, há pouco espaço para os “velhos” elementos no meio da necessidade quase gritante de renovação que o longa deixa transparecer.


“You forgot the first rule about remakes: don’t fuck with the original”. A frase, que mostra certo cinismo na visão dos criadores, mostra como “Pânico 4” é uma sequência com cara de refilmagem, contendo o próprio making-off. Mas será que eu é que fiquei velho e ranzinza, e não entendo mais o que me fazia gostar tanto desses “slasher films” na adolescência? Após rever a trilogia original (digo "original" porque elas fecham uma história completa, na qual o próprio diretor afirmou não querer mais trabalhar) antes de assistir este novo, afirmo que continuo admirando e gostando muito dela. No final das contas, “Pânico 4” é bem humorado e tem seus momentos, mas tinha muito potencial para ser melhor. E também, em se tratando de continuações, poderia ter sido muito pior.

terça-feira, 29 de junho de 2010

Coletânea "O Lado Sombrio - 13 Contos Imortais"

Acabou se ser lançada o livro "O Lado Sombrio - 13 contos imortais", coletânea da Editora CanalBRV que reúne contos de terror e suspense de autores novos brasileiros - entre eles, este que vos escreve!



Suspense e terror são gêneros literários que fascinam leitores em todo o mundo, mas que ainda dispõem de poucos autores no Brasil. “Sabemos que há uma multidão de fãs assíduos, mas ainda carecemos de escritores desse universo particular da literatura em nosso País”, comenta o escritor Paulo Ballado. Foi pensando nisso que Ballado promoveu uma extensa seleção nacional. O resultado é a obra “O Lado Sombrio - 13 Contos Imortais” (Editora BRVCom, 128 pág.), que será lançada neste domingo (27/06), no Bar Calabouço.

“A seleção durou vários meses e utilizamos todos os meios possíveis, de indicações a entrevistas, para reunir os 13 melhores contos de suspense e terror de escritores brasileiros da atualidade”, relata Ballado.

São, ao todo, nove os autores da obra: Vitelio Brustolin, Vivian Wolkoff, Marcelo dos Santos, Rafael Bonaldi, Virgílio Gabriel, Dgenal Gonçalves Rocha, Rubem Cabral, Eduardo Caon e o próprio Paulo Ballado, que além de assinar o conto de encerramento, é o organizador do livro.

O livro pode ser adquirido POR ESTE SITE.

Mais detalhes no blog do CanalBRV!

Nota que saiu no jornal O dia, quando a coletânea foi lançada:



VAMOS AJUDAR OS NOVOS ESCRITORES BRASILEIROS, JÁ QUE A LITERATURA NESTE PAÍS É ALGO TÃO DESPREZADO - AINDA MAIS A LITERATURA FANTÁSTICA!

terça-feira, 1 de junho de 2010

Irmãos

Não venha me dizer que você não tem.
Eu tenho, você tem, todo mundo que puder imaginar tem. E isso inclui André Figueiredo, por incrível que pareça. Veja bem: essa cidade é pequena e o povo fala demais, não importa o assunto. E muitas vezes um caso é contado tantas vezes e por tanto tempo, sofrendo as mais variadas distorções e adições de detalhes, que ele acaba se tornando uma bela aberração, se comparada aos fatos originais. E quem vê André hoje, andando apressado pelas ruas para não perder a hora ou o ônibus, não imagina que esse trabalhador calvo e acima do peso seja ele mesmo - ou melhor, aquele André.
Meu irmão estudou na classe dele na sétima série...
Minha prima ficou com ele uma vez, antes daquilo acontecer...
Eu tenho um amigo, que tem um amigo, que comprou cerveja pra ele numa festa, há muito tempo atrás....
Todo mundo tenta criar um vínculo entre a história que vão contar e eles mesmos, é uma artimanha natural para se ganhar a confiança do ouvinte, pergunte para qualquer testemunha de Jeová. Mas acontece que André e eu éramos muito amigos naquela época. Além de estudarmos na mesma escola, fazíamos juntos aulas de judô desde criança e tínhamos quase os mesmos grupos de amigos – bem, nenhuma coincidência mágica para uma cidade como essa. Tínhamos 17 anos, certeza absoluta de que nossos sonhos estavam predestinados a darem certo, nenhum juízo e um indisfarçável otimismo diante da vida.
Mas André era... O Cara. Todo mundo conhece um cara ou uma menina assim, tem sempre um desses ao nosso redor nessa idade. Você já deve ter odiado uma pessoa dessas, ou amado em segredo, ou ainda deve ter copiado cada atitude e corte de cabelo na tentativa de ter "personalidade própria". Talvez tenha até começado a fumar por causa d'O Fulano ou d'A Sicrana. Eu era o amigo d'O Cara, com todos os benefícios que se pode ter disso. E em meio a garotas, festas, bebedeiras escondidas, competições de judô, mais garotas, escola e mais festas, não parecia existir nada errado ou fora do lugar no mundo; as coisas ruins estavam apenas no jornal das 8 ou na casa daquele primo distante. Até aquele dia.
Era mais um treino de judô, e André e eu estávamos ajudando o professor a fazer exercícios com os alunos menores. Chutes, socos, pulos, corridas, cambalhotas, enfim, todo o tipo de golpes de nomes complicados que eu já nem lembro. E todos queriam desafiar André, já que ele era o campeão das regionais pelo terceiro ano consecutivo. Ele lutou e venceu os novatos por umas duas horas seguidas, sem perder a pose, aproveitando cada vitória como uma merecida massagem no ego. E André sabia que estava cansado quando o último da fila pisou no tatame; sabia que suas costas estavam doloridas, e que o gordinho mal-encarado não sabia lutar limpo. Veja bem, não estou julgando-o, eu teria feito o mesmo. Por isso, quando André recebeu aquele chute na barriga que o fez cair e ficar desacordado por meia hora, eu devo ter sido a pessoa que mais sentiu sua dor. Ainda me lembro daquela sensação, queimando a boca do estômago.
Nas primeiras semanas, enquanto a notícia de sua derrota para um menino da sétima série se espalhava pela cidade, André tentava rir do assunto e arranjava mil e umas desculpas, sempre com um risinho nervoso e sua usual ajeitada na franja, jogando a cabeça para o lado. Mas o que só eu sabia era da dor em sua barriga que nunca passava, e que parecia só aumentar. Ele reclamava pouco; achávamos que era apenas mais uma contusão passageira. Mas às vezes, quando André não estava prestando atenção, eu observava seu rosto ficar tenso e preocupado, seu olhar longe e aflito, perdido por vários minutos. Até que ele voltava a si e olhava para mim, e a gente fingia que nada estava acontecendo.
Foi nessa época então que comecei a perceber o que todo mundo tem. Meu pai tinha insônia, coisa que jamais pude imaginar. Talvez a causa disso fossem as contas atrasadas ou as crises de choro na cozinha, de madrugada, enquanto tomava um trago. Até então eu nunca tinha percebido que minha mãe se entupia de antidepressivos. Ainda me lembro dela parada na pia da cozinha, o olhar fixo no céu, hipnotizada; sua boca esboçava um lindo sorriso, com dentes e tudo, e por vezes uma lágrima descia tímida, mal alcançando o lábio. Minha finada mãe... Sentia-me um criminoso reparando nesses momentos de solidão das pessoas. Era angústia, minha primeira vez: algo havia se partido dentro de mim, e eu espiava pela rachadura.
A barriga de André inchava. Sua família pulava de médico em médico na cidade, mas nenhum sabia dar um diagnóstico correto. Eventualmente os rumores começaram a sair dos consultórios e tomaram proporções dramáticas, já que em uma cidadezinha como essa o sigilo médico é tão forte quanto o de um confessionário. André já não saía mais nos finais de semana e mal frequentava a escola. Não só pelas dores terríveis que o faziam se contorcer, mas pelos olhares, as ofensas veladas e o abandono daqueles que sempre o rodearam. Eu sempre fiquei ao seu lado; mesmo nos piores momentos, como quando sua barriga chegou ao tamanho da de uma grávida, cheia de estrias vermelhas e roxas, eu passava dias em sua casa, tentando fazê-lo esquecer daquilo tudo. Chegávamos a dividir a mesma cama, varando a madrugada vendo filmes.
Todo mundo tem segredos. Daqueles desconfortáveis e delicados, que sempre deixam uma reunião de família em silêncio, e que geralmente passam despercebidos para a maioria das pessoas. Como duas meninas da classe, que sempre andavam juntas e se abraçavam e se beijavam demais; ou um garoto da outra turma que não percebia que estava sempre com as coisas dos outros na mochila. E com o tempo as coisas pareceram surgir do nada para a gente, apesar de sempre terem estado debaixo do nosso nariz: a irmã deprimida de meu vizinho fugiu de casa, cansada de ser molestada pelo tio; meu pai brigou com o cunhado, deixando bem claro uma desavença de mais de vinte anos; meu primo Tadeu passou a atender pelo nome de Tanya (com ípsilon); e a morte de parentes e amigos passou a ser mais incompreensível e comum do que nunca. Enfim, coisas que a gente aprende a se acostumar.
Um dia André começou a ter convulsões e apagou. Do hospital da cidade, ele foi levado para a capital, e lá ficou internado por um mês. Mas mesmo depois que ele voltou, seu semblante parecia mais sério, mais maduro. Falava pouco, passou a desinteressar-se por esportes e por festas. Seu círculo de amigos quase se extinguiu, principalmente pelo fato de sua doença nunca ter sido explicada para todo mundo, e até hoje você pode escutar desde câncer e AIDS até desintoxicação de drogas. Mas eu sei o que realmente aconteceu. E se isso não é um desses fatos estranhos que a gente tenta esconder... bem, acho que é pelo menos o tipo de coisa que faz a gente encarar a vida com outros olhos.
Chama-se “Fetus in fetu”. Há menos de 100 casos reconhecidos pela medicina desde o início do século XX. Acontece quando, na formação dos embriões de gêmeos idênticos, um deles acaba ficando dentro do outro, e passa a depender daquele que se desenvolveu para continuar vivendo, mesmo que não se desenvolva totalmente. Os especialistas explicaram que o irmão de André estava em uma cavidade acima do estômago, dependendo dele, mas sem causar danos à sua saúde. O golpe que ele recebeu no judô não só matou o feto, mas também o deslocou, causando uma reação de rejeição do organismo.
É conhecido também como gêmeo parasita.
“É o olho do meu pai”, me disse André uma das últimas vezes que estive em sua casa. Ele segurava o pote de formol contra a luz, e o pequeno feto girava na água oleosa como em uma vitrine. O olho aberto era azul, brilhante, diferente dos olhos verdes de André. O gêmeo era enrugado e tinha todos os membros quase totalmente formados, apesar de ser minúsculo. Seu cabelo era negro e farto. “Minha mãe insistiu em ficar com ele".
Com o tempo, nos tornamos dois completos estranhos. Bem, isso às vezes acontece com amigos de infância, nem todas as boas amizades duram para sempre. É mais umas das coisas que a gente aprende a se acostumar na vida. E mesmo que não seja errado sentir-se triste ao pensar dessa forma, é preciso saber levar, pois sempre que você se pegar acendendo um cigarro depois de tentar parar pela milésima vez, sempre que você esbarrar com O Fulano ou a Sicrana na rua, esse sentimento ruim vai aflorar, e é melhor não lhe dar vazão. É para o nosso próprio bem. Às vezes posso imaginar algum jantar na casa do André onde, em algum determinado momento, todos ficam em silêncio, sem mover os talheres ou as bocas. Ninguém se olha, mas a mesma sensação flutua por todas as mentes. Dura apenas um segundo, talvez menos até. Todos sentem como se estivessem sendo observados por um pequenino olhar, que nunca hesita, descansa ou perdoa.
Se bem que eu acho que todo mundo se sente assim algumas vezes.
Antes de a gente parar de se sentir obrigado a se cumprimentar ou ter que fingir que não viu o outro passar, André e eu saímos de carro algumas vezes para conversar e beber. Eram tentativas de fazer tudo voltar a ser como era antes; conversávamos e ríamos como se nunca tivéssemos nos afastado, e combinávamos de ligar para o outro no dia seguinte. Tudo em vão. Na última vez, era uma noite abafada e sem lua, e a gente bebia na caçamba da minha picape. Eu fiz uma piada que o deixou irritado, a ponto de quebrar a garrafa de cerveja na calçada, mas aí ele riu muito, e eu ri muito também.
- Já pensou que poderiam ser trigêmeos?
Depois, fez-se um silêncio longo e constrangedor. Daí ele me abraçou, e começou a chorar.

quarta-feira, 12 de maio de 2010

Primeiro filho

Alguns segredos são como câncer. Apodrecem-lhe por dentro.
A frase não lhe saía da cabeça, e Catarina não prestava atenção nem na paisagem que passava pela janela, e nem no marido, que falava novamente dos planos e sonhos para o bebê. Sua mente vagava longe de qualquer coisa que lhe dissesse respeito.
-... mas se for mesmo um menino eu não vou querer que ele estude no bairro e... Amor? Catarina? Terra para mamãe...
- Sim, sim, Marcos. Escuta, quando você pode me acompanhar ao doutor Silva?
- Não sei, tenho que ver. Com todos os casos novos no escritório, eu não posso deixar meu chefe na mão. Sabe como é, tenho que justificar a promoção! Mas há algo de errado? Você nunca se importou de ir sozinha. Eu posso falar com...
- Não, não, tudo bem.
O carro entrou na garagem da casa recém-comprada. O bairro não era muito bom, e toda a família tentou persuadi-los a não serem impulsivos, a alugarem um apartamento até o bebê nascer. Mas a energia do casal, tão jovem e entusiasmado a arcar com as escolhas de ter a própria família, logo contagiou todos ao seu redor. Era como sorrir ao ver uma criança dando os primeiros passos. O dinheiro era pouco e os quartos grandes e vazios, mas ambos tinham uma brilhante carreira pela frente - e o bebê veio como uma consequência mais do que natural, a peça mais do que necessária da tapeçaria da vida. “Porque no meu tempo, quando sua avó engravidou...”.
Catarina, agora no oitavo mês, sentia o estômago revirar ao passar pelo portão.
- Pode ir entrando, amor, vou pegar as compras.
- Surpresa! – Catarina quase caiu para trás ao ver os pais em sua sala, os braços abertos, um enorme sorriso em seus rostos e um faixa na parede, "SENHOR, ABENÇOAI ESTA CRIANÇA!". - Ai, querida, eu falei para o seu pai que você não pode se assustar, mas você sabe como ele é...
- Mãe, oi... achei que você ia chegar só semana que vem. – Ela tentava disfarçar o desconforto com um sorriso.
- Esse era o combinado, mas você conhece a sua mãe. Como vai, meu anjo.
- Estou bem, pai.
Marcos entrou na casa com sacolas, cumprimentando os sogros. Mas antes mesmo de colocá-las no chão, pulou para o meio da sala, em direção a um imenso embrulho de presente. – Meu, que é isso? Vocês não precisavam... UAU! Amor, olha, olha!
Catariana viu seu marido pular de felicidade, abrindo a caixa de um carrinho para bebês. Ele alisava a embalagem e olhava dela para a esposa, como um garoto ao ganhar a primeira bicicleta. Ela viu seu olhar brilhando de emoção, tão genuíno e emocionado, tão alegre, tão... apaixonado. Sua garganta apertou com um gosto amargo, os olhos arderam em lágrimas... e Catarina correu para o banheiro.
- Amor...
Ela sentou-se num canto e chorou, com o rosto contra uma toalha. Chorou por um bom tempo, deixando os soluços e as lágrimas lhe aliviarem o peito. Lá fora, um silêncio a aguardava, mas sua mãe já tinha avisado, com um olhar condolente: deixa, é coisa de grávida. Ao levantar-se para lavar o rosto, Catarina fechou com força o espelho do armário, causando uma pequena rachadura no canto esquerdo. O vidro refletira seus olhos cansados; mas agora mostrava sua barriga.

8 da manhã.
Catarina levantou-se, tomou os antidepressivos, lavou o rosto. Sua mãe já estava na cozinha, preparando o café. O pai partira de madrugada para evitar o trânsito, e ela não parava de falar e reclamar. - Mas não se preocupe querida, ele volta assim que o bebê nascer.
O bebê. Catarina então acordou.
Marcos passou correndo pelas duas, engolindo uma xícara de café e uma bolacha. Beijou a esposa na testa e já estava na porta quando voltou para pegar a maleta.
- Ai, é uma pena o que aconteceu com a cadelinha, a... como era o nome dela mesmo? A Lica, isso, Lica! Ia ser tão bonito as duas mulheres da casa com seus filhinhos!
- Dona Irene! Por favor, né... - advertiu Marcos.
- Só comentei, poxa! É a natureza. Tem cachorros que fazem isso com os filhotes quando eles nascem fraquinhos, ou quando elas estão doentes. Não é crueldade não! E ela deve ter fugido porque os animais...
- Não foi nada bonito ter que dar um jeito naqueles filhotinhos todos... argh! Deixa pra lá! Ainda bem que você não viu nada, né amor? Bom, tenho que ir. Até!
Catarina olhava para o quintal, as folhas secas vindas dos vizinhos sobre a grama e sobre o canteiro de flores. Ela havia se esquecido de regá-las, e todas pareciam tão exaustas quando ela. Porém não tinham os pés inchados, dores pelo corpo, quedas intermináveis de cabelo, estrias, nem consciência do quão rápido o tempo passava, não tinham botões; já estavam secas demais. - Algumas fêmeas não nascem para serem mães, eu acho. – E levantou-se da mesa.
Sentada no futuro quarto de seu primeiro filho, a sombra do móbile de cavalos passava por seu rosto inexpressivo, enquanto suas mãos dobravam repetidamente as roupas que a criança já havia ganho - quase todas verdes ou amarelas, já que o sexo seria surpresa. “O que estou fazendo com o Marcos? Como explicar para ele? Meu Deus... eu o amo tanto, tanto! Tudo era tão lindo. Ele é tão lindo. Deixei que isso fosse longe demais. Acho que ele já nem me reconhece. Eu não me reconheço. Não carregando esse... esse...”. Sua mãe entrou no quarto e sentou-se ao seu lado.
- Me perdoa mãe, me perdoa? – Catarina a abraçou, começou a chorar e adormeceu.

Quando Marcos chegou à noite, Catarina parecia mais animada, e o marido gostou de vê-la falante e agitada na cozinha com dona Irene.
- Filha, só esse copo de vinho. Vocês preferem carne vermelha ou branca?
- Ahn... é... nós estamos evitando comer carne, dona Irene. - Disse Marcos sem jeito, e apontou com os olhos para Catarina.
- Catarina! Onde já se viu! Você está...
- Eu sei! – gritou Catarina, para a surpresa de ambos. – Mas desde o começo do mês não posso nem sentir o cheiro de carne. Meu estômago embrulha, tenho ânsias que até fazem minha barriga doer! E me vem um gosto estranho na boca, como se fosse... como se fosse... ai, olha, só de falar. - ela pôs a mão na protuberante barriga e foi para o sofá. O marido e a sogra se entreolharam, mas Marcos desviou o olhar. Ele tentava disfarçar a todo custo.
Catarina acordou assustada no meio da noite. Estava ensopada de suor, sentada em um canto do quarto. Não sabia como havia chegado ali. Ela então se acalmou, controlando a respiração, enquanto seus olhos se acostumavam com a escuridão. Assim, foi percebendo lentamente os machucados nas palmas das mãos, as marcas das próprias unhas. Catarina voltou em silêncio para a cama, mas não percebeu os pés sujos de terra. Nem que Marcos estava acordado, observando-a aterrorizado.

O leite vazava, criando manchas escuras e redondas em sua camiseta. Catarina olhava seu reflexo na janela, a repulsa e a culpa enrijecendo-lhe os músculos quase em espasmo. Ao ir para a cozinha, Marcos apressou-se a tirar o saco de lixo da varanda do quintal, jogando-o no porta-malas do carro. Era sábado. Sua mãe estava no portão, conversando com as vizinhas.
- Amor, vou levar o lixo naquele terreno perto da rodovia, tudo bem? Qualquer coisa me...
- Ok. – Catarina parou na porta, observando o quintal limpo, a área recém-lavada. Marcos a observou de costas, tão linda e melancólica. Um arrepio lhe fez suspirar, quieto, sem querer aceitar os pensamentos que lhe inundavam a mente dia e noite. Ele tentaria de tudo para ajudar sua esposa, e só havia um lugar por onde ele poderia começar. Pegou as chaves e partiu.
Catarina tirou as sandálias e caminhou pelo quintal, olhando para o céu azul impecável, sem nuvens, sentindo a grama úmida. A casinha da cachorra parecia dez anos mais velha, pela poeira e as tigelas secas sob o sol, em um canto do terreno. Ela se aproximou, passando a mão sobre a fina camada de pó, fazendo pequenos desenhos com as pontas dos dedos - até que um prego cortou-lhe o indicador. Catarina, por instinto, levou a mão à boca, e o gosto de sangue lhe fez enjoar e vomitar. Ela curvou-se e ali, caída de quatro, a mãe sentiu o olhar ser atraído para o interior escuro da casinha, tão quente e próximo de seu rosto. Ela se levantou lentamente e tirou-a do lugar. Começou então a cavar, sem saber o que realmente estava fazendo ou por que. Cavou por vários minutos o quadrado de terra seca e fofa com as mãos trêmulas, sua ansiedade e medo cada vez maiores, até ver a ponta de um corrente. Puxou-a, sentindo o peso na outra ponta revolver a terra e finalmente se expor para a claridade do dia. Catarina caiu para trás ao ver o pequeno cadáver em avançada decomposição, gritando de horror e cobrindo os olhos. Em sua mente as imagens e sensações vinham como flashes violentos, mas claros: a mordaça... a faca... os olhos tristes da cadela... a corrente envolta de seu corpo ainda morno... os frágeis filhotes ganindo... suas peles macias e tenras... o gosto da carne.
O corpo da grávida fez um violento espasmo ficou quieto. Ela então se levantou calmamente, o olhar vazio e inexpressivo como o de uma máscara. Caminhou até a cozinha, pegou o frasco de álcool do armário e a caixa de fósforos. Despejou metodicamente o líquido sobre os sofás, o tapete e o carrinho de bebê, que estava bem no centro da sala. Afastou-se, acendeu um palito e caminhou para a frente da casa.
- Ai meu Senhor, fogo! Catarina!– Dona Irene correu para casa em pânico ao perceber a fumaça, as vizinhas gritando por ajuda. Ela abraçou a filha e correu para a casa da frente, enquanto a rua se enchia de curiosos e pessoas tentando ajudar. Logo uma sirene soou virando a esquina. A fumaça preta fedia, e envolvia a todos como uma densa neblina.

Com o rosto enterrado entre as mãos, Marcos tentava se recompor e continuar a falar. Respirou fundo, encarando o doutor Silva. - Cada vez que eu acordo com ela gritando feito uma selvagem e se debatendo, eu desabo, eu morro! Mas tento ser forte e ajudá-la, só que nada mais adianta! Ela nunca se lembra. Às vezes eu a pego com o olhar vago, perdido, e eu juro que ela pode ficar assim por horas a fio! E... meu Deus.... e...
- Algum incidente como o dos filhotes voltou a ocorrer? – perguntou o médico.
- Várias vezes. Quando consigo dormir, tenho que acordar mais cedo para tentar limpar a sujeira que ela faz de noite. Ontem foi outro gato... o senhor deveria ter visto o estado que, que... – e desabou a chorar, o corpo tremendo, o rosto entre as mãos.
Doutor Silva deixou o rapaz acalmar-se, procurando as palavras:
- Tudo indica que Catarina desenvolveu um caso de TDI - Transtorno Dissociativo de Identidade, agravado ainda mais pela depressão que ela vem sofrendo. Nesse estado alterado que se manifesta de noite, ela é outra pessoa, um indivíduo agressivo e com tendências psicóticas que dá vazão aos sentimentos que ela vem suprimido e lidado sozinha. Mas não é algo raro em casos como o de sua esposa.
- Suprimido? Mas eu tenho ajudado ela em tudo e...
- Eu descobri que ela sequer foi à psicóloga que eu indiquei a ela. Em sua atual condição, é imprescindível acompanhamento psicológico. É um fardo muito pesado e traumático para uma mulher carregar um filho morto. Mas felizmente esses três meses estão passando...
Marcos empalideceu e não ouviu mais nada.
Doutor Silva percebeu no longo silêncio que se seguiu o que estava acontecendo: Catarina não contara ao marido. A situação era pior do que ele imaginava.
- Marcos, eu preciso ver Catarina imediatamente. Ela pode representar um perigo não só para si mesma, como para qualquer outra pessoa.
Seu telefone tocou. Era sua sogra.

Dona Irene desligou o celular e foi consolar a filha desolada, que olhava para a casa.
- Calma filha, vai ficar tudo bem. Os danos não foram grandes! Logo estará tudo pronto para o bebê de novo!
- Mãe... o que aconteceu? Eu... eu...
- Calma, querida. Ninguém se machucou, graças a Deus. Olha, vou com Fátima pegar algumas roupas para você, é logo ali na esquina, volto logo, e o Marcos já está chegando. Você pode segurar o Julinho? Olha que coisa fofa de neném!
A vizinha deixou o filho no colo de Catarina, que observou as duas sumirem pelo portão. O bebê loiro e gorducho chupava o dedo calmamente em seus braços.
“Era um menino”, pensou Catarina. “O tempo está acabando, meu Deus! Como vou contar para todo mundo, para o Marcos! Eu falhei, eu não pude lhe dar um filho, dar um filho pro meu amor... agora ele é apenas um pequenino cadáver apodrecendo dentro de mim... como um câncer.... eu falhei ... o Marcos nunca vai me perdoar... um câncer... a cadela aqui falhou! Vou parir um primogênito natimorto! Um corpo bastardo em decomposição! Eu falhei, a cadela falhou Marcos, sua cadela falhou!...”.
As lágrimas desciam por seu rosto imóvel. De repente Catarina fechou os olhos e sua cabeça pendeu para frente. Ela então se levantou de vagar, com uma expressão vazia e fria nos olhos negros. Tateou o bolso da frente da calça, reconhecendo a caixa de fósforos. Olhou para os lados, viu a rua quase vazia. Olhou finalmente para a criança, que sorria para ela, mexendo as mãozinhas.
A grávida atravessou a rua com o bebê em seus braços, passou pela fachada chamuscada e, calmamente, atravessou a sala destruída e foi para o quintal.