terça-feira, 1 de junho de 2010

Irmãos

Não venha me dizer que você não tem.
Eu tenho, você tem, todo mundo que puder imaginar tem. E isso inclui André Figueiredo, por incrível que pareça. Veja bem: essa cidade é pequena e o povo fala demais, não importa o assunto. E muitas vezes um caso é contado tantas vezes e por tanto tempo, sofrendo as mais variadas distorções e adições de detalhes, que ele acaba se tornando uma bela aberração, se comparada aos fatos originais. E quem vê André hoje, andando apressado pelas ruas para não perder a hora ou o ônibus, não imagina que esse trabalhador calvo e acima do peso seja ele mesmo - ou melhor, aquele André.
Meu irmão estudou na classe dele na sétima série...
Minha prima ficou com ele uma vez, antes daquilo acontecer...
Eu tenho um amigo, que tem um amigo, que comprou cerveja pra ele numa festa, há muito tempo atrás....
Todo mundo tenta criar um vínculo entre a história que vão contar e eles mesmos, é uma artimanha natural para se ganhar a confiança do ouvinte, pergunte para qualquer testemunha de Jeová. Mas acontece que André e eu éramos muito amigos naquela época. Além de estudarmos na mesma escola, fazíamos juntos aulas de judô desde criança e tínhamos quase os mesmos grupos de amigos – bem, nenhuma coincidência mágica para uma cidade como essa. Tínhamos 17 anos, certeza absoluta de que nossos sonhos estavam predestinados a darem certo, nenhum juízo e um indisfarçável otimismo diante da vida.
Mas André era... O Cara. Todo mundo conhece um cara ou uma menina assim, tem sempre um desses ao nosso redor nessa idade. Você já deve ter odiado uma pessoa dessas, ou amado em segredo, ou ainda deve ter copiado cada atitude e corte de cabelo na tentativa de ter "personalidade própria". Talvez tenha até começado a fumar por causa d'O Fulano ou d'A Sicrana. Eu era o amigo d'O Cara, com todos os benefícios que se pode ter disso. E em meio a garotas, festas, bebedeiras escondidas, competições de judô, mais garotas, escola e mais festas, não parecia existir nada errado ou fora do lugar no mundo; as coisas ruins estavam apenas no jornal das 8 ou na casa daquele primo distante. Até aquele dia.
Era mais um treino de judô, e André e eu estávamos ajudando o professor a fazer exercícios com os alunos menores. Chutes, socos, pulos, corridas, cambalhotas, enfim, todo o tipo de golpes de nomes complicados que eu já nem lembro. E todos queriam desafiar André, já que ele era o campeão das regionais pelo terceiro ano consecutivo. Ele lutou e venceu os novatos por umas duas horas seguidas, sem perder a pose, aproveitando cada vitória como uma merecida massagem no ego. E André sabia que estava cansado quando o último da fila pisou no tatame; sabia que suas costas estavam doloridas, e que o gordinho mal-encarado não sabia lutar limpo. Veja bem, não estou julgando-o, eu teria feito o mesmo. Por isso, quando André recebeu aquele chute na barriga que o fez cair e ficar desacordado por meia hora, eu devo ter sido a pessoa que mais sentiu sua dor. Ainda me lembro daquela sensação, queimando a boca do estômago.
Nas primeiras semanas, enquanto a notícia de sua derrota para um menino da sétima série se espalhava pela cidade, André tentava rir do assunto e arranjava mil e umas desculpas, sempre com um risinho nervoso e sua usual ajeitada na franja, jogando a cabeça para o lado. Mas o que só eu sabia era da dor em sua barriga que nunca passava, e que parecia só aumentar. Ele reclamava pouco; achávamos que era apenas mais uma contusão passageira. Mas às vezes, quando André não estava prestando atenção, eu observava seu rosto ficar tenso e preocupado, seu olhar longe e aflito, perdido por vários minutos. Até que ele voltava a si e olhava para mim, e a gente fingia que nada estava acontecendo.
Foi nessa época então que comecei a perceber o que todo mundo tem. Meu pai tinha insônia, coisa que jamais pude imaginar. Talvez a causa disso fossem as contas atrasadas ou as crises de choro na cozinha, de madrugada, enquanto tomava um trago. Até então eu nunca tinha percebido que minha mãe se entupia de antidepressivos. Ainda me lembro dela parada na pia da cozinha, o olhar fixo no céu, hipnotizada; sua boca esboçava um lindo sorriso, com dentes e tudo, e por vezes uma lágrima descia tímida, mal alcançando o lábio. Minha finada mãe... Sentia-me um criminoso reparando nesses momentos de solidão das pessoas. Era angústia, minha primeira vez: algo havia se partido dentro de mim, e eu espiava pela rachadura.
A barriga de André inchava. Sua família pulava de médico em médico na cidade, mas nenhum sabia dar um diagnóstico correto. Eventualmente os rumores começaram a sair dos consultórios e tomaram proporções dramáticas, já que em uma cidadezinha como essa o sigilo médico é tão forte quanto o de um confessionário. André já não saía mais nos finais de semana e mal frequentava a escola. Não só pelas dores terríveis que o faziam se contorcer, mas pelos olhares, as ofensas veladas e o abandono daqueles que sempre o rodearam. Eu sempre fiquei ao seu lado; mesmo nos piores momentos, como quando sua barriga chegou ao tamanho da de uma grávida, cheia de estrias vermelhas e roxas, eu passava dias em sua casa, tentando fazê-lo esquecer daquilo tudo. Chegávamos a dividir a mesma cama, varando a madrugada vendo filmes.
Todo mundo tem segredos. Daqueles desconfortáveis e delicados, que sempre deixam uma reunião de família em silêncio, e que geralmente passam despercebidos para a maioria das pessoas. Como duas meninas da classe, que sempre andavam juntas e se abraçavam e se beijavam demais; ou um garoto da outra turma que não percebia que estava sempre com as coisas dos outros na mochila. E com o tempo as coisas pareceram surgir do nada para a gente, apesar de sempre terem estado debaixo do nosso nariz: a irmã deprimida de meu vizinho fugiu de casa, cansada de ser molestada pelo tio; meu pai brigou com o cunhado, deixando bem claro uma desavença de mais de vinte anos; meu primo Tadeu passou a atender pelo nome de Tanya (com ípsilon); e a morte de parentes e amigos passou a ser mais incompreensível e comum do que nunca. Enfim, coisas que a gente aprende a se acostumar.
Um dia André começou a ter convulsões e apagou. Do hospital da cidade, ele foi levado para a capital, e lá ficou internado por um mês. Mas mesmo depois que ele voltou, seu semblante parecia mais sério, mais maduro. Falava pouco, passou a desinteressar-se por esportes e por festas. Seu círculo de amigos quase se extinguiu, principalmente pelo fato de sua doença nunca ter sido explicada para todo mundo, e até hoje você pode escutar desde câncer e AIDS até desintoxicação de drogas. Mas eu sei o que realmente aconteceu. E se isso não é um desses fatos estranhos que a gente tenta esconder... bem, acho que é pelo menos o tipo de coisa que faz a gente encarar a vida com outros olhos.
Chama-se “Fetus in fetu”. Há menos de 100 casos reconhecidos pela medicina desde o início do século XX. Acontece quando, na formação dos embriões de gêmeos idênticos, um deles acaba ficando dentro do outro, e passa a depender daquele que se desenvolveu para continuar vivendo, mesmo que não se desenvolva totalmente. Os especialistas explicaram que o irmão de André estava em uma cavidade acima do estômago, dependendo dele, mas sem causar danos à sua saúde. O golpe que ele recebeu no judô não só matou o feto, mas também o deslocou, causando uma reação de rejeição do organismo.
É conhecido também como gêmeo parasita.
“É o olho do meu pai”, me disse André uma das últimas vezes que estive em sua casa. Ele segurava o pote de formol contra a luz, e o pequeno feto girava na água oleosa como em uma vitrine. O olho aberto era azul, brilhante, diferente dos olhos verdes de André. O gêmeo era enrugado e tinha todos os membros quase totalmente formados, apesar de ser minúsculo. Seu cabelo era negro e farto. “Minha mãe insistiu em ficar com ele".
Com o tempo, nos tornamos dois completos estranhos. Bem, isso às vezes acontece com amigos de infância, nem todas as boas amizades duram para sempre. É mais umas das coisas que a gente aprende a se acostumar na vida. E mesmo que não seja errado sentir-se triste ao pensar dessa forma, é preciso saber levar, pois sempre que você se pegar acendendo um cigarro depois de tentar parar pela milésima vez, sempre que você esbarrar com O Fulano ou a Sicrana na rua, esse sentimento ruim vai aflorar, e é melhor não lhe dar vazão. É para o nosso próprio bem. Às vezes posso imaginar algum jantar na casa do André onde, em algum determinado momento, todos ficam em silêncio, sem mover os talheres ou as bocas. Ninguém se olha, mas a mesma sensação flutua por todas as mentes. Dura apenas um segundo, talvez menos até. Todos sentem como se estivessem sendo observados por um pequenino olhar, que nunca hesita, descansa ou perdoa.
Se bem que eu acho que todo mundo se sente assim algumas vezes.
Antes de a gente parar de se sentir obrigado a se cumprimentar ou ter que fingir que não viu o outro passar, André e eu saímos de carro algumas vezes para conversar e beber. Eram tentativas de fazer tudo voltar a ser como era antes; conversávamos e ríamos como se nunca tivéssemos nos afastado, e combinávamos de ligar para o outro no dia seguinte. Tudo em vão. Na última vez, era uma noite abafada e sem lua, e a gente bebia na caçamba da minha picape. Eu fiz uma piada que o deixou irritado, a ponto de quebrar a garrafa de cerveja na calçada, mas aí ele riu muito, e eu ri muito também.
- Já pensou que poderiam ser trigêmeos?
Depois, fez-se um silêncio longo e constrangedor. Daí ele me abraçou, e começou a chorar.

4 comentários:

disse...

Haha, caraca Bonis, gostei demais do texto! Esse detalhe da gente do nada enchergar coisas que sempre estiveram ali mas que nunca vimos...sempre assim, seeeempre.
Alias, gosto demais do seu jeito de escrever, dando dicas dos fatos antes de dizer o fato em si. Isso sempre me prende! Muito bom!

Roberto disse...

Brother, texto foda!!! Parabéns!!! Curti muito sua maneira de escrever...passarei a ler seu blog!!! Abração, do seu irmão carioca!!!

Roberto disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Jullia A. disse...

OO bonis, voce tem problema.
haha
Muuito bom. Prefiro o estilo do anterior 'e mais o lance da conversa com o leitor que eu nao curto, mas 'e pessoal.
Muuuito bom (:
o/
ps: certeza que voce tava vendo aberracoes da medicina ou algo do genero quando teve a ideia. hehe