quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Conto: Três putas velhas



- Esta vendo as manchas de sangue? Está vendo? – Alex abraça o primo e aponta o dedo direito para o ônibus no meio do canavial. A caveira de ferro do anel, quase totalmente preta pela oxidação, escorrega para o lado e me encara, sem olhos.
Eu acendo um cigarro, dou três tragos que me amargam a garganta e o passo para Mateus. Aquelas são manchas de ferrugem, mas à noite e sob a luz inquieta da queimada elas parecem feridas abertas.
Roni estende a mão, pedindo um trago. Mateus limpa algumas cinzas que pousaram sobre o ombro, acende um baseado na brasa e passa o cigarro para o amigo. Estamos os três encostados na caminhonete do meu pai observando o fogo alto e imponente que devora a lavoura de cana lá embaixo, no gigantesco terreno que circunda o morro onde estacionamos. Um vento quente e fumacento sopra contra nós, mas ninguém reclama.
Atrás de nós outra caminhonete chega pela estrada de terra que leva à cidade. A música alta a anuncia, e uma nuvem de poeira encobre seus rastros. Três caras e uma menina que eu nunca vi na vida pulam da caçamba, e mais dois amigos do primo de Alex. Eles tiram uma imensa caixa térmica dali e Alex os abraça também, dando socos e empurrões.
- É hoje, meus caros! É hoje! – Alex abre uma lata de cerveja e a ergue em direção às chamas do canavial, uivando. – É hoje!
Da cabine descem Lívia e o namorado, e eu sinto um misto de nostalgia e irritação revirar-me o estômago. Eles nos abraçam e cumprimentam com as frases que sempre falamos nos nossos encontros cada vez mais raros: “E aí, sumidos?”, “Quanto tempo, hein?”, “Tou só o pó, trabalhando demais”, etc.
- E pensar que um ano atrás era ela quem estaria entornando a vodca na goela desses moleques. – Roni comenta de canto, e Mateus o cutuca com o cotovelo.
- Não começa, Roni. – Adverte, segurando a fumaça.
Mas ele está certo. Nós três sabemos.
Em cima do capô, Alex derrama a vodca barata na boca dos três caras, que não passam dos dezoito anos. O último gole é dele, generoso, antes de arremessar a garrafa. Alto, com os cabelos castanhos levemente ondulados até os ombros e olhos azuis, Alex seria o Jesus Cristo perfeito para uma encenação de páscoa, o genro perfeito disputado pelas carolas – se sua magreza, o rosto sulcado e a pele verruguenta não fosse fruto das drogas. Com trinta e dois anos nas costas, ele ainda se veste e se comporta como vocalista da banda punk que tivera quinze anos atrás. O primo e os amigos são da segunda geração a se encantar por ele; Mateus, Roni, Lívia e eu éramos da primeira, mais inocente e deslumbrada do que lisérgica.
A primeira de muitas, aparentemente.
As cinzas começam a cair sobre nós. Primeiro esparsas, ciscos de um cinza claro, frágeis e quebradiços. Depois maiores, de um preto fosco, fazendo a gente ter consciência de que alguma coisa de fato foi queimada. Amanhã a nossa querida cidadezinha – trinta mil habitantes, dois prédios e um semáforo – amanhecerá cheia dessa fuligem nos quintais, nas pracinhas, nas ruas e nos para-brisas. As pessoas andarão indiferentes aos pequenos redemoinhos de vento brincando com a sujeira e a fina névoa insistente. A impressão é a de uma cidade fantasma, sendo eternamente purgada por essa neve tóxica e inconspícua. Eu vou observar as pessoas e o dia seguindo seu fluxo, como se fosse o único que realmente pode enxergar as cinzas e senti-las entupindo meus pulmões. Meu mal é reparar demais nas coisas, é uma merda.
Animais, plantas, veículos, corpos, lixo, crianças. É infindável a lista de coisas que podem ser consumidas pelo canavial.
-E aí, vai rolar ou não? A gente precisa acordar cedo amanhã, né mô? – Reclama Lívia, e eu reviro os olhos e encaro Mateus, que já está bem longe daqui. Nós também precisamos, penso, mas apenas balanço a cabeça para ela, em acordo. O namorado dela solta um “Hu hum” enquanto toma um gole de refrigerante. Ela prende o cabelo loiro e comprido e reclama do calor para mim, abanando o rosto com a mão, mas eu me viro e vou pegar uma cerveja. Ela está certa, mas eu me recuso a concordar. Me recuso.
- Muito bem, senhoras e senhores! – Diz Alex abrindo os braços na nossa frente. O fogo e a fumaça ao fundo se confunde com a jaqueta de couro e a camiseta de rock, dando a impressão de um Croma Key mal feito dos programas do começo dos anos 90, os braços e a cabeça sem um corpo. O apresentador cheirado e bêbado continua. – Vamos dar início à cerimônia voltando um pouco no tempo. Através desse canavial passava uma estrada de terra, por onde os ônibus escolares trafegavam para levar e trazer as criancinhas da zona rural – ônibus como aquele.
Ele aponta teatralmente para a carcaça semiescondida na plantação, e seus novos pupilos o observam, quietos. Roni e eu nos olhamos e seguramos a risada. A performance de Alex fica cada vez melhor.
- Há cerca de quinze anos, em um fim de tarde chuvoso, um ônibus acabou perdendo a direção e bateu de frente com um caminhão carregado de óleo que vinha da usina e bum! Explodiu. Todos morreram – os dois motoristas e as quarenta crianças.
- Não eram vinte? – Cochicha Roni.
- E porque que só o ônibus ficou abandonado ali...? – Comenta Mateus.
Alex olha de esguelha para eles em sua pausa dramática, fuzilando-os com o olhar – algo desnecessário, pois o showman já fisgou sua plateia.
- Um capataz que vivia ali por perto ouviu o acidente, mas por causa da chuva muito forte e por não ter carro ou telefone acabou não podendo fazer nada. Ele foi obrigado a ouvir as crianças gritarem enquanto eram queimadas vivas. No dia seguinte encontraram-no vagando pelo canavial, sem falar coisa com coisa e chamando pelas almas penadas. Vocês sabem quem ele é né? O Tião Marrento, aquele mendigo louco que brigava com todo mundo na rua e foi atropelado pelo trem no ano passado.
O trio balança a cabeça, e um deles cochicha um “pode crer”. De todos os causos e fantasmas que assombram a cidade, esse talvez seja o mais legítimo. Logo Alex também entrará para o rol de personagens daqui, uma lenda viva a ameaçar a moral e os bons costumes da juventude. Algumas coisas nunca mudam, enquanto que outras...
Eu olho para Roni, que tenta inutilmente achar um sinal para o celular. A gente se conheceu no prédio em que Mateus e eu morávamos. Uma tarde nós descemos para brincar na garagem e lá estava ele, sentado em silêncio olhando para o vão dos apartamentos, ouvindo os barulhos de domingo: o tilintar dos pratos do almoço que sempre atrasava, as discussões, as risadas, o futebol na televisão. Roni se mudara com a mãe e o namorado novo dela, que passavam o tempo livre discutindo e bebendo na sala ou trancados no quarto. Ele nunca comentou nada, mas eu sabia que as horas que ele passava ali com o pescoço dolorido e a cabeça tombada para trás era o que ele conhecia de uma vida familiar. É o tipo de coisa que não precisa ou não deve ser dita; os três estavam preocupados demais em brincar para pensar nisso. Roni e eu fizemos faculdade e moramos na mesma cidade agora, e quando nos vemos também não nos apegamos a fatos ruins; sei que ele está sofrendo por causa da namorada que o deixou e que o novo chefe está lhe tirando o sono, mas enfim, estamos sempre preocupados demais em matar a saudade para falarmos disso.
Mateus e eu praticamente nascemos juntos. Enquanto Roni e eu éramos os baixinhos encrenqueiros, ele era o gigante de bom coração e sem tempo quente que acabava nos defendendo e brigando pela gente quando arrumávamos confusão. Ele morou em São Paulo por um ano enquanto estudava e fazia parte de um time semiprofissional de basquete, mas a morte da irmã o fez largar tudo e voltar a morar com a família, trabalhando no escritório do pai. Jéssica tinha um tipo raro de leucemia e em um fim de semana que os pais foram ver o filho jogar na capital, ela fora internada às pressas e morreu depois de alguns dias. Mateus se culpava, a mãe se culpava, os avós culpavam o hospital e o pai não culpava ninguém, exceto Deus; todos procuravam um culpado para não encararem o fato de que coisas ruins acontecem com pessoas boas, e vice-versa. É a vida, ponto final. Fim. Sem explicação ou lição. Mateus nunca toca no assunto e diz levar tudo numa boa, que tudo está bem agora. Mas a quantidade de maconha que ele passou a fumar me diz o contrário. Enfim, outro fantasma que ninguém quer exorcizar.
E Lívia... Bem, nos últimos anos fomos os melhores amigos que já existiram.
- Ninguém nunca usou o terreno por respeito e por medo, pois dizem                que o lugar é assombrado até hoje pelas criancinhas que brincam de esconde-esconde por ali. Mas como a usina foi vendida e, como vocês veem, os negócios estão prosperando...
- Não enrola. – Reclama Lívia em voz baixa batendo o pé, para a minha irritação. A blusinha rosa claro e o jeans cheio de brilho chegam a ser uma afronta, quase um insulto pessoal se comparados com as roupas que ela vestia antes. Eu tento não entrar em paranoias, e respiro fundo.
- ...E essa é a última chance de vocês participarem dessa tradição. Meus camaradas, vocês vão correr até o ônibus e pegar um pedaço do estofado do último banco de passageiros, poltrona 42. Mas rápido, pois o fogo não vai demorar para alcançar o busão.
Eu olho para o pedaço de estofado velho e amarelado que retiro do bolso, esfarelando-se. Mateus e Roni fazem o mesmo.
- Na boa gente, já deu a hora. Beijos para quem fica. – Diz Lívia depois de um bocejo, acenando para nós. Alex dá de ombros e volta a falar com os garotos. O casal entra na caminhonete e parte de vagar, deixando uma nuvem baixa da poeira marrom – até isso é sem graça neles, meu Deus.E então algo explode dentro de mim, o ápice de uma discussão acalorada que nunca aconteceu.
- Sabe o que mais me irrita? É a prepotência e a arrogância dela. Só porque ela está praticamente casada com aquele playboyzinho sertanejo e levando a vidinha casa-trabalho burguesa com o “mô”, ela se acha totalmente superior aos outros. E não é nem o fato dela estar pagando a língua sobre praticamente tudo o que ela já disse sobre relacionamentos (Roni concorda com a cabeça, pensativo), mas a hipocrisia. Há um ano ela era a mina mais descolada da cidade, a que todas invejavam e queriam ser amigas, bebendo e curtindo como se não houvesse amanhã. Foi só começar a namorar e pronto: começou a agir como se estivesse casada há dez anos, com um discurso medíocre e moralista, machista até – enfim, o de uma dona-de-casa. Pensando bem, acho que ela sempre pensou assim, foi só a máscara que caiu.
- Cara, todos nós já fomos mais animados. – Argumenta Roni.
- Eu sei, eu sei... – Concordo, respirando. – A gente cresce, muda, vai ficando mais velho... Mas ela se agarrou nessa vidinha e se vangloria como se nada mais fosse melhor, como se a gente fosse inferior. – Eu olho para a fumaça densa no céu, perplexo com a minha própria confissão. – Isso não é amadurecer, isso é se esconder.
- Tipo quem para de fumar, mas dá uns tragos quando bebe, e reclama de quem fuma? – Mateus me acusa com um sorriso de canto e os olhinhos vermelhos e baixos, mas ainda brincalhões, e ele me desarma. Eu abraço a cintura dele, e ele encosta a cabeça sobre a minha, me abraçando também. Eu queria dizer para ele nunca mudar, para continuar com aquele sorriso largo e inocente para sempre; queria dizer o quanto sentia falta das nossas conversas sobre o nada e as madrugadas filosóficas regadas a vinho e maconha; queria contar o quanto me sentia sozinho e perdido, sem coragem de vislumbrar o futuro; queria dizer que também não suportava as coisas boas que acontecem com as pessoas ruins, que estou ficando tão amargo que nem me reconheço mais. Enfim, eu quero chorar, mas o mundo já tem fantasmas suficientes, e é melhor não tocar nesses assuntos, também.
Então eu me recomponho e encaro o céu. A fumaça está altíssima e cobre a vista, fazendo a paisagem parecer um cenário falso. Tudo parece enfadonho – a garrafa quebrada na areia, Alex, os garotos entornando cerveja e dando gritos e socos uns nos outros para criar coragem, as outras pessoas que eu sequer conheço e que não fazem diferença. Os novatos estão alinhados na beira da encosta, esperando o sinal do mestre.
Roni, Mateus e eu nos levantamos, e instintivamente sabemos que é hora de ir embora.
- Falou, Alex! – Grita Mateus, e nós acenamos.
- Até vocês, suas putas velhas!? Então tá, vacilões! – Grita ele tentando soar bravo, mas a excitação do momento o domina.
Nós rimos e entramos na caminhonete. Somos três putas velhas demais para achar que desastres acontecem só nos causos alheios e nos feriados prolongados – e a noite está pedindo por uma tragédia, com o palco armado atrás da cortina de fumaça.
Eu dou partida e saímos em silêncio, ouvindo a música e as risadas esmaecerem-se e ficarem para trás, até que o vento as abafa por completo. No retrovisor as chamas ardem, implacáveis.

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Conto: Dias chuvosos e segundas-feiras sempre me deprimem

- Que patético.
Estou na janela de casa lendo a manchete do dia quando Karen chega de carro e buzina. “Fã tem cabelos grisalhos e 15 tatuagens da cantora Miley Cirus". Eu amasso o jornal e amarro um lenço em volta dos cabelos loiros hermeticamente penteados. É um entardecer chuvoso e frio, mas ainda assim eu visto os óculos de sol. Desse momento em diante, não posso sair em público sem eles.
Karen está brigando com o volume quando entro e cumprimento-a. Uma balada triste dos Carpenters toca no rádio e no mesmo instante eu percebo que ela está no repeat, e me lembro do motivo. A gente vai ficando indiferente a essas coisas com o passar do tempo, vai se acostumando. Suas mãos ossudas tremem quase imperceptivelmente e seus dentes rangem, fazendo seu rosto cadavérico parecer ainda mais magro. Ela sorri para mim.
- Você está linda!
- Obrigada, querida. – Respondo, e ela toma um pílula e um gole do café frio que descansa no porta-copo. Coloco minha bolsa no banco de trás, ao lado de um livro que a mãe dela lhe deu há alguns meses, na vã esperança de ajudá-la. Karen jamais contara à família o verdadeiro motivo por trás de sua doença; eles não entenderiam, e as coisas ficariam ainda piores. Ela poderia inclusive colocar os outros em risco, e Karen morreria se isso acontecesse.
Quase ninguém a entenderia, exceto nós do grupo.
Você é o que você come está escrito na capa.
Deve ser difícil não se sentir um monte de merda quando seu estômago não vê nada substancial há semanas. Karen é uma overdose de café, inibidores de apetite, xenical, quitosana, faseolamina, cloridrato de sibutramina, efedrina, pílulas de emagrecimento e mais alguns outros inibidores de apetite proibidos no país.
Meu estômago ronca, mas eu deixo para abrir o pacote de bolachas que trouxe na bolsa quando chegarmos ao celeiro.

Depois de uma hora, o carro entra em uma estrada de terra, e ao longe vejo o celeiro velho e imponente. A fazenda abandonada é da família do Jota, o fundador do grupo e quem me apresentou a ele há quase um ano, quase que por acidente.
Eu havia acabado de me formar em canto. Era minha segunda faculdade e, como qualquer publicitária insatisfeita ou cantora em ascensão, estava desempregada. Meus dias e minhas noites se misturavam conforme eu mandava currículos pela internet e ia a algumas entrevistas de emprego, em uma cidade grande e cara para onde eu me mudara em busca de novos ares e não conhecia ninguém - um clichê de artista amargurado que foi se tornando ridículo e insuportável conforme as contas começaram a se acumular embaixo da porta. As oportunidades para cantar eram tão ruins quanto esparsas, mas suficientes para colocar qualquer sonho ou força de vontade em perspectiva.
Eu conheci o Jota quando comprei por um site um pôster do filme Quanto mais quente melhor, de 1959, por uma pechincha. Estava precisando de um mimo, afinal de contas. Ele disse que morávamos perto, e que poderia levar o cartaz em casa sem problemas, se eu não me importasse. Na época eu não saía de casa há seis dias, e não conversava com ninguém há oito. Não, eu não me importava.
Ao abrir a porta, me deparei com um sujeito de cabelos castanhos sujos na altura das orelhas, com um cavanhaque, sandálias franciscanas e uma camiseta do The Cure. Aos 26 anos, ele finalmente estava saindo da casa dos pais e tinha tantos cartazes de filmes e bandas e tão pouco dinheiro que seu quarto-sala recém-alugado parecia “uma sessão de filmes pornôs de uma locadora, cheia de pôsteres de lançamentos ultrapassados forrando as paredes e colados uns sobre os outros, disputando espaço e atenção”, nas próprias palavras dele.
- Sabia que eles fazem isso para aliviar a tensão e a culpa de você estar escolhendo entre um gang-bang inter-racial e o filme de uma celebridade decadente, por exemplo, ao lado de desconhecidos?
Não, eu não sabia.
Quando ele viu meus olhos brilharem ao reparar no longo tubo de papelão que ele trazia debaixo do braço, ele soube que eu era uma deles.
- Você é fã dela, não é? Digo, da Marilyn. Acho que você vai gostar do...clube que eu fundei.
- Um fã clube? Perguntei.
Minha admiração por Marylin Monroe começou cedo, assistindo e reassistindo as fitas de VHS que minha avó tinha. Era uma bela coleção; Dona Júlia passou boa parte da vida dedicando seu tempo livre às revistas de fofocas e aos filmes da bombshell, e quando fez setenta anos, ganhou de meu pai uma coleção dos clássicos da loira e um videocassete. Eu passava as tardes na casa dela depois da escola, e nós encenávamos as cenas mais divertidas e nos maquiávamos, e ríamos até não poder mais. Em seus últimos anos de vida, já bastante debilitada pelo Alzheimer, dona Júlia mal se lembrava quem eu ou meu avô éramos, mas ela ainda citava de cor suas cenas preferidas. E quando a lucidez ameaçava voltar, fazendo-a ter uma crise de depressão por não ter ideia do que estava fazendo ou se seus pais ainda estavam vivos, eu me vestia e me maquiava e cantava para ela, e juntas nos perdíamos nas lembranças (inventadas ou reais) dos tempos dourados de Hollywood. Ela era Marylin, e eu Joan Crawford ou Bette Davis, e juntas reclamávamos do assédio da imprensa e suspirávamos por Montgomery Clift.
- Não exatamente Digamos que meu “clube” seja a forma mais perfeita e extrema de se homenagear algum artista que você ama. E por isso mesmo, é um "clube" bem exclusivo. Se você me permitir continuar, peço apenas a total e absoluta discrição. Senão, vou ser obrigado a te matar. – Ele riu e eu esperei que ele fizesse de novo as aspas com as mãos, mas ele não as fez.
Sentada na minha sala, assisti muda a explicação de Jota. Horas pareceram se passar, mas a paixão e a certeza dele eram contagiantes e dariam consistência até à mais insana das ideias. Pessoas descoladas tem um jeito peculiar de fazer você se sentir um idiota se não concordar com elas. Os descolados e os loucos. Mas mesmo assim, quando ele foi embora, eu fechei a porta jurando nunca mais pensar no assunto, pois já tinha problemas suficientes.
Um mês depois, meu cabelo estava platinado.
Karen estaciona junto aos outros carros, na parte lateral do celeiro. Jota está conversando com Diana e James, enquanto os três analisam um carro preto que James usará ainda este ano, e que ela provavelmente usará no ano que vem, dependendo do estado em que ele ficar. Os três acenam para nós, e nós acenamos de volta. O sol está terminando de se por, e o tom azulado da escuridão é quebrado por uma luz amarela de um poste.
Nós adentramos o celeiro transformado em um aconchegante e rústico pub. Rostos famosos decoram cada centímetro quadrado das paredes, sorrindo para nós. Outros já chegaram e estão sentados nas mesinhas ao redor do palco ou no bar, onde nos sentamos. Ao nosso lado, dois sujeitos discutem calorosamente literatura e o sentido da vida – um velhote gorducho com uma cerveja na mão, e outro um pouco mais jovem, com um cigarro fedorento.
- Olha, Buck, você precisa entender que a vida não tem sentido algum antes e independentemente do fato do homem viver. O valor da vida é o sentido que cada homem escolhe para si mesmo.
O outro bate na mesa e ri, balançando a cabeça, antes de acender um cigarro. Karen revira os olhos e me puxa para uma mesa.
- Já te contaram como aquele outro fez para ficar vesgo? Ele pegou um...
Andy, um adolescente vestido de preto e com o cabelo descolorido e cortado em tigelinha nos interrompe tirando uma foto minha, de surpresa. O brilho nos cega por alguns segundos, e nós rimos.
A ideia geral é simples, e possui poucas regras. Nesse celeiro, você não só veste e age como o seu ídolo. Você é o seu ídolo. E respeitando algumas limitações de cor, gênero e qualquer casualidade que lhe fuja do controle, você fará qualquer coisa para ser igual ao seu ídolo. Qualquer coisa.
Nós nos sentamos em uma mesa, ao lado do Cazuza. Todos assistem compenetrados ao show de Amy Winehouse. O cara de vinte e poucos anos engole metade das letras e passa a maior parte do tempo bebendo e tentando não desmaiar – e o espetáculo é incrível. Ele deve ter gasto os tufos nas próteses de silicone, nas tatuagens e no cabelo.
Na mesa do outro lado estão os amigos dela, o “grupo dos 27”. Janis, Jim, Hendrix e Curt que, depois dos aplausos, a ajuda a descer.
- Boa noite, damas! – Jota senta-se ao nosso lado. Ele veste um manto branco que lhe chega até às (mesmas) sandálias franciscanas, e seu cabelo já passa dos ombros. – Vai cantar hoje?
-Claro, querido. – Respondo.
- Conseguiu falar com o carinha que eu te falei? – Pergunta Karen.
- Sim. Fui vê-lo tocar semana passada e ainda não tenho certeza se ele é um dos nossos, mas tenho fé. Ele tem só vinte e quatro anos, mas seria perfeito para ficar no meu lugar. O cantor favorito dele é o Nelson Gonçalves, que morreu com...
- 79. Eu sei.
A principal regra desse clube é que não importa quantos anos você tenha - ao chegar na idade exata em que seu ídolo morreu, você tem que se matar. Ou melhor dizendo, você tem que morrer da mesma forma que ele.

A palavra é realização. Um comprometimento que de alguma forma preenche um vazio dentro de você que nenhuma outra coisa consegue. Uma meta, uma missão. Um sentido. Você passa a viver pensando pura e exclusivamente na roupa que irá usar no próximo encontro; você pesquisa, lê biografias, vê filmes e vídeos na internet; decora entrevistas, estuda o modo de falar, os trejeitos; você come o que eles comiam, usa Chanel Nº5 para dormir (apenas duas gotas) e toma barbitúricos; você termina o dia com a sensação de ter feito algo que realmente importa e vale a pena, e dorme tranquila, sonhando que está cantando para as tropas americanas na Coréia - isso se seu ídolo não sofrer de insônia.
Olha o Elvis ali, saindo do banheiro. Ele ainda não morreu. Aquele cara deve ter uns trinta anos; ainda lhe faltam uns doze para ser encontrado morto por um ataque cardíaco em sua casa. E se você o visse por aí, em seu local de trabalho ou na rua, jamais imaginaria a satisfação que lhe preenche o peito. Você nos vê empacotando suas compras ou rasgando seu ingresso na entrada do cinema, cabisbaixos; falando sozinhos no ônibus; chegando em casa depois de trabalhar em um emprego medíocre, com um saco de ração de gatos e uma garrafa de vinho; você nos ouve no telefone, tentando vender uma apólice de seguros ou um consórcio de automóveis; você nos dá gorjetas ao entrar e sair dos hotéis e dos táxis, ou ainda nos joga uma moeda na rua, enquanto ensaiamos algum número para a apresentação da noite – não importa, as possibilidades são imensas. Talvez você até trabalhe para o Chico Xavier ou seja inquilino da Clarice Lispector, mas jamais saberá.
Aqui não precisamos ser nós mesmos ou o que a sociedade quer. Aqui, nós podemos ser quem a gente quiser.
Karen engole outra pílula.
Frank Sinatra termina seu número e desce do palco, ao som das palmas. Eu me olho no espelhinho de bolso uma última vez antes do meu nome ser anunciado.
Quando me levanto, Karen já está de pé, perto da porta. As coisas são assim por aqui, ninguém sabe o que vai acontecer amanhã, dia 03 de agosto. Para nós, ela está indo embora mais cedo por não estar se sentindo bem ou por ter um compromisso.
Sinto uma ponta de tristeza, não pelo o que vai acontecer, ou porque estou vendo pela última vez uma das poucas amigas de verdade que já tive na vida – mas porque amanhã nos jornais eu provavelmente vou descobrir quem ela realmente é.
Uma professora infantil.
Uma bancária.
Uma poetisa tímida demais para declamar seus textos.
Uma artista plástica.
Uma empregada.
Uma mãe.
Karen dá uma última olhada ao redor, acena para Jota e sai como sempre viveu – sorrindo e com os olhos grandes e melancólicos baixos.
Jota anuncia meu nome e eu respiro fundo. Há uma enorme cruz de madeira no fundo do palco e, de onde estou, vejo-o abrir os braços ao som dos aplausos e imagino por um segundo que ele já está crucificado, como estará daqui a seis anos nesse mesmo palco. Então eu caminho até o microfone, sorrindo. A luz do holofote me cega de início, mas tanto faz.
É a minha hora de brilhar.

terça-feira, 7 de agosto de 2012

Conto: Uma visita inesperada


Carolina desceu o caminho de pedras que levava da enorme casa de campo para a casinha de bonecas, que ficava nos fundos. Ela vinha nas pontas dos pés e com um braço erguido, como se segurasse com um cigarro. A berrante construção de madeira cor-de-rosa destacava-se dos tons de verde da floresta que circundava a propriedade e do lago, a alguns metros, com sua superfície acinzentada quase imaculada. A manhã estava nublada e fria.
- Mariana, minha querida! Você não imagina como estava o trânsito. – Falava a menina de forma afetada. Ao chegar na frente da casa, Carolina bateu na porta.
- Carol, mas que surpresa! – Recebeu a amiga, com um copo de Martini de plástico cheio de suco. Ela arrumou os cachos loiros com a outra mão e convidou a visita para entrar.
Carolina tinha seis anos e Mariana, cinco.
A menina cumprimentou a anfitriã com um beijo em casa bochecha, retirou a bolsa de lantejoulas e a pôs em uma estante abarrotada de ursinhos e brinquedos.
- Meus pais mandaram um beijo. Eles estão lá em cima com... – Ao se virar, Carolina se deparou com uma visão inusitada, sentada na mesinha de plástico lilás. Por um segundo ela não soube o que pensar, voltando à suas feições e características infantis. Era o tipo de pessoa que ela não esperava encontrar em um “evento desse nível” (como falava sua mãe), e muito menos a sós com a amiga. Ela a estudou com cautela, tomando cuidado para não demonstrar a surpresa e a decepção – que estavam estampadas em seus olhos grandes e azuis. Ela esperava encontrar outras primas e colegas de sua melhor amiga, mas nunca um...
- Oi. _disse o menino sorridente.
- Ah, esse é o meu novo amigo. Essa é a Carol.
- Oi. – A menina sentou-se do outro lado da mesa, e ficou observando o lago, pela janelinha. A música abafada da casa de campo chegava até eles de vez em quando, trazida pelo vento. Ela lançava olhares nervosos para a amiga, que colocava bolachas e canapés em pratinhos roxos (combinando com seu avental cheio de pôneis) e mexia nas panelas de brinquedo, e para o menino – que lhe parecia um tanto... Diferente.
Uma fina neblina pairava sobre o lago, desfazendo-se à medida que o sol saía por detrás das pesadas nuvens. A superfície da água parecia fundir-se com o vapor e o céu cinza, no horizonte.
Carolina tirou as luvas (roxas) e o cachecol xadrez, e reparou na blusa longa e escura que o menino usava, de um tecido grosso e rústico (pobre). A gola lhe tampava o pescoço e quase alcançava seu queixo, e um gorro preto.
-Tá com frio? -Perguntou a garota.
O menino balançou a cabeça, com o mesmo sorriso líneo.
-Tendi. Ãhm... Seus pais também estão na festa do tio e da tia?
-Não. Eu moro aqui perto, e daí resolvi vim brincar com vocês.
Sozinho? Pensou Carolina, mas sua amiga já vinha do outro lado da pequena cabana, com os petiscos.
-Não é legal? Eu queria morar aqui também! E não ter que voltar pra cidade, pra escola...
-Ah, escola é uma droga! – comentou o menino, com a voz baixa, ao que as duas concordaram e riram.
-Ele tava me falando que morar por aqui é muito legal! Que ele e os amigos dele brincam o dia todo na floresta! – Os olhos da menina cintilavam. – Meus pais nunca me deixam ir na floresta, né Carol?...
-Ai, eu ia morrer de medo! – disse Carolina, rindo.
-Que nada, é super legal!
-Mari, olha o meu novo celular. – Carolina retirou o IPhone do bolso. Ele é cheio de joguinhos, tem internet...
-Eu pedi um desses pra minha mãe, mas ela disse que eu sou muito nova pra ele, af! Você tem iPhone?
-Um o que? –perguntou o menino, observando o celular sobre a mesa. Ele olhava desconfiado para o aparelho. -Ah, não, é meus pais também não me deixam ter um, af!
Carolina notou o tom o desconforto do garoto, e tinha quase certeza que era a primeira vez que ele dizia aquela gíria. Seu tom não era natural; era forçado, descabido – aliás, como o próprio menino, que não parecia se encaixar naquela situação. Meninos... af!I Pensou a garota.
-Como você se_
-E aí, a gente vai brincar de quê? – o menino interrompeu Carolina, olhando ao redor da cabana.
-De casinha, ué! Olha a comidinha!
-Ah, não isso é coisa de menina! Vamos brincar de esconde-esconde, lá fora!
-Minha mãe não deixa, eu só posso ficar aqui.
-Nem a minha. – completou Carolina, desapontada.
-Ah, tá bom, vai! – disse o menino, rindo.
Mariana então se sentou, e as duas atacaram a comida.

-Coloca mais suco pra gente? E coloca mais açúcar, que ele ainda está amargo, bléh! – Pediu Mariana, fazendo uma careta. Ela foi até o fogão e pegou o smartphone. – Vou pedir pra minha mãe trazer refri.
O menino descruzou os braços e despejou o suco de uva nos copos. Para o espanto de Carolina, as pequeninas mãos dele eram curvas e enrugadas, com pelos negros sobre os dedos e unhas amareladas. Ele então tirou um saquinho de pano do bolso e colocou um pó branco nas duas taças, e as empurrou na direção das garotas. Carolina olhou assustada para a amiga, que dava um imenso bocejo.
-Ai, sem sinal! – E coçou os olhos.
Mariana voltou para seu lugar e pôs-se a tagarelar sobre as aulas de balé, as amiguinhas da escola, sobre as roupas que comprara e do cachorro que os pais estavam enrolando para lhe dar, enquanto bebericava o suco. O menino ria baixinho, e concordava com a cabeça. Carolina, porém, ficava cada vez mais tensa à medida que uma sensação ruim crescia dentro de si. Ela não parava de mexer nos cabelos pretos e longos, e sua respiração acelerava-se a cada gole da amiga – que não percebia que estava começando a falar engraçado. Será que a tia sabe que ele está aqui com a gente? O coração dela disparou, e a garota precisou segurar a vontade de chorar.
-Não vai beber o suco, Carol? Agora tá docinho. – comentou Mariana.
-É, Carol, bebe. – disse o menino, cujo sorriso desaparecera, deixando no lugar um rosto magro e sulcado, esboçando o extremo oposto de sua voz suave. Os vincos que se formaram dos lados da boca chamaram a atenção da garota, mas não mais que seus olhos – negros e redondos, quase negros, com um brilho vítreo. Carolina então desviou o olhar.
-Eu vou lá pra cima, Mari.
- Ah, espera! Tem o bolo. – Ao levantar-se, Mariana deu dois passos trôpegos, tentou se segurar em uma cadeira, mas acabou desmaiando.
-Mari! –Carolina ergueu-se com a voz embargada pelo medo, mas ele fora mais rápido. Com o movimento, do bolso de seu casaco caiu um cachimbo de madeira.
Ao ver Carolina acuada em um canto, arfando e com as expressões deformadas anunciando o choro, o menino sorriu, mostrando os dentes podres.
-Se eu fosse você, ficaria bem quietinha.
Quando ele se abaixou para pegar o cachimbo, seu gorro enroscou em um gancho para casacos – revelando uma lustrosa careca e um par de orelhas longas e pontiagudas.
Carolina começou a chorar e a dizer coisas ininteligíveis, mas algumas frases se formaram corretamente entre seus soluços.
-Deixa a gente em paz... Eu quero a minha mãe... MÃE! – o grito finalmente irrompeu de sua garganta.
Ele pulou o corpo de Mariana e agarrou o pescoço da menina com os dedos grossos e ásperos. Seu hálito era forte e pútrido, quente.
-Se não quiser que eu te visite todas as noites, mocinha, é melhor não contar isso para ninguém. Porque eu vou ficar sabendo. Eu vou. Você não imagina como as notícias voam nessa floresta...
Petrificada, a menina já não tinha certeza do que estava acontecendo. Muda, trêmula e sentindo uma estranha calma se apoderar de suas entranhas, Carolina sentiu o coração desacelerar conforme assistia a cena que se desenvolvia diante de seus olhos brilhantes e arregalados, ainda que sem vida, como os de uma boneca.
Ele tinha as pernas curtas arqueadas para os lados, o que fazia com que balançasse o corpo ao andar. Ao levantar o corpo de Mariana em seus braços, ele cheirou o pescoço da menina, esfregando o rosto no dela, e abriu a porta. Pela janelinha, Carolina viu o diminuto homem correr em direção à mata e perder-se na escuridão.

-Oi meninas! Vim ver como se vocês precisam de alguma coisa. – A mãe de Mariana descia o caminho de pedras com um copo de Martini na mão. – Carol, fofa, o que foi?
Carolina estava sentada em um balanço, quietinha, olhando fixamente para a floresta.
Preocupada, a mulher entrou na casinha, para então sair de novo aos gritos.
-Cadê a Mariana!?
Um vento gélido veio de dentro da floresta, uivando. Uma rajada forte, viva e pulsante, fazendo os galhos daquelas árvores centenárias balançarem e suas copas farfalharem, como se falassem, com cuidado para não perturbarem o silêncio quase palpável.
Como se cochichassem.
E em silêncio, Carolina deu impulso com os pés. E balançou também.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Aos meus 25 anos

Passo as últimas horas dos meus primeiros 24 anos sofrendo e reclamando das coisas de sempre, dos males do meu 1/4 de século.

Da minha ansiedade, que me faz trocar os pés pelas mãos, que me faz enfiar o nariz aonde não era chamado - e que já enfiou o que não era chamado no meu nariz, que enche meus pulmões de fumaça, que me faz verter (sim, "verter", pois sou ultrarromântico, no sentido mais brega e obsessivo da palavra) litros de qualquer coisa goela a baixo, tomar porres e porres homéricos e as melhores das piores decisões possíveis. Que transforma qualquer gota em um copo de água, depois em uma tempestade, e depois em um dilúvio, e depois eu preciso recriar o mundo.

Da minha carência, que me faz ver príncipes encantados em todas as esquinas - e em qual esquina não tem um boteco e um príncipe, que me faz acreditar e viver as mais lindas e traiçoeiras fantasias, que me faz chorar de ansiedade, que me deixa ansioso por chorar de verdade por alguém, que me faz sentir o pai de todas as aberrações por nunca ter namorado nesses anos todos ("Observem, respeitável público, enquanto o homem mais carente do mundo embarca em mais uma fantasia autodestrutiva de carência e autopiedade! Oh, o Horror, o Horror! Só R$2,50!). Minha necessidade de sumir do mundo ao mesmo tempo que tento chamar atenção até dos mortos, e eu espero que você aí - é, você mesmo, sabe quem é - não se assuste e suma ou me queira morto ao ler isso. Por que eu voltaria.

Do meu coração, esse nariz de pugilista, cansado, deformado e arrebentado, vertendo (aí, não falei?) sangue ao final da luta, se contentando com uma cerveja barata e uma puta de bar.

Da minha insegurança, que junto com tudo isso me faz ter as melhores ideias imagináveis - para então perdê-las pela janela do ônibus, em folhas jogadas pela escrivaninha, em guardanapos rabiscados, e até em mensagens que um dia enviei para alguém achando que era meu outro número. Sou desses.

Sou desses, e sempre fui. Por isso, é com um sorriso amargo que celebro essa data querida - sim, com muitas felicidades, mas é óbvio que eu jamais iria agradecer pela minha família e meus amigos, esses portos seguros que me fazem seguir em frente. Também sou desses que não sabem lidar com as boas emoções.

E aí cito o que uma amiga já tuitou: "eu queria pelo menos ter uma pequena previsão de quando eu vou parar de fazer bosta".

Enquanto isso, vou ao posto neste exato momento, que eu mereço uma Heinecken. Cheers, cheers for fears, cheers in heaven!

sexta-feira, 13 de maio de 2011

Ecos


“As batidas continuam. Elas ecoam pelo apartamento inteiro, sem ritmo definido, às vezes fracas, às vezes fortes... Quando eu acho que elas finalmente terminaram, o som surdo e abafado quebra o silêncio e eu desperto, assustada, olhando para as luzes que entram e se refletem no teto. O batente dessa janela velha está tão torto que quase congelo durante a noite, com o vento que entra pela fresta sempre aberta. Não me lembro quando foi última noite tranquila de sono que tive, ou do último dia inteiro que vivi conscientemente... Antes eu achava que as batidas vinham do vizinho da esquerda, depois tive certeza que eram do da direita; hoje, já nem sei mais de onde elas podem vir. É como se elas não tivessem mais um ponto único de contato, como se...”

Marina fechou o diário e tomou outro gole do café. Esfregou os olhos e olhou para o relógio: duas horas já haviam passado, em questão de segundos. "Foco, foco, foco..." ela repetia mentalmente como um mantra, olhando para a tela do computador. Mas logo seu olhar se desviava para a janela, por onde ela assistia a vida se arrastar.

18h30. Mais um rosto cansado na multidão voltando para casa. Marina caminhava mecanicamente pelos corredores do metrô, seguindo o fluxo. No vagão, espremida em um canto contra a janela, ela observava seu reflexo, no meio de muitos outros. As luzes do túnel embaralhavam sua vista cansada. “Meu Deus, que olheiras são essas... esse rosto não pode ser meu..” Ela fechou os olhos. Ao voltar a abri-los, uma multidão de rostos diferentes lhe encarava de volta. A caminhada de volta para casa sempre era um alívio, mas ao se aproximar de seu prédio, um arrepio lhe lembrava daquele estranho barulho que lhe atormentava há dias. O zelador não retornara suas mensagens, muito menos os vizinhos. Ela sentou-se na mureta da garagem e fumou um cigarro, absorta pelo zunido do elevador. “Por favor, esta noite não, por favor..."

Mas aquela noite foi como as outras anteriores, e o dia seguinte também imitou os tantos outros, e a noite seguinte também, e o dia depois do outro. A sensação de repetição e de impotência inundava lentamente a vida da jovem de 24 anos, uma força que lhe sugava as energias e tornavam suas vontades, alegrias e sonhos parte de algo muito remoto, quase como a conversa de um desconhecido no ônibus. Ela sentava no parapeito da janela e via o sol nascer quase todos os dias, rabiscando em seu diário. Os cabelos escuros e lisos lhe caíam pelos ombros, emoldurando seu rosto cada vez mais pálido e sem expressão. As lágrimas às vezes lhe inundavam os olhos castanhos, e ela se entregava ao saudosismo e ao desespero, abraçando os joelhos contra o corpo, chorando baixinho e se lembrando da família e dos amigos que deixara para trás em busca de uma vida melhor, de suas ambições; cada sonho tem seu preço – e às vezes a vida castiga dando aquilo que se deseja. “Era para ser assim mesmo? Onde foram parar...” Mas as palavras já não saíam mais como deveriam; elas também começavam a soar as mesmas, como seus dias.

Foi então que uma estranha sensação começou a lhe incomodar. De início era apenas uma má impressão, como quando se está em uma sala lotada e temos a certeza de que alguém está nos encarando. Mas como o passar do tempo, aquela sensação foi se tornando cada vez mais constante e forte. Era cada vez mais comum Marina sair de seu estado sonâmbulo, como que acordada bruscamente, e olhar apreensiva para trás ou para o lado, respirando com dificuldade.

- Tinha alguém aqui por perto, querendo falar comigo? Nossa, eu ando tão desligada ultimamente, não tenho dormido muito bem... eu jurava que tinha alguém por aqui, sabe? - Mas seus colegas de trabalho apenas olhavam-na e desviavam o olhar, frios, antes de especularem se seu “estado ausente” era por causa de álcool ou pó.

A cada esquina, a cada quarteirão, a cada estação de metro; cada vez que ela saía do elevador, entrava em um bar ou em uma livraria; ao tentar acordar e ao tentar dormir. Marina olhava furtivamente para os lados procurando reconhecer um olhar ou descobrir a razão daquela angústia obsessiva que lhe esmagava os pensamentos. Via risos, olhares de soslaio, vultos irreconhecíveis; sentia cheiros estranhos e vertigens que lhe roubavam os sentidos – e acabava perdida no fim da tarde, olhando o entardecer como se rebobinasse seu próprio filme.

O acontecimento que finalmente colocou sua saúde mental em cheque ocorreu da maneira mais casual possível – afinal, os absurdos da vida sempre vêm camuflados nas mais corriqueiras banalidades. Marina andava pelo escritório durante um intervalo, bebendo seu café, quando na sala de recepção uma imagem no visor das câmeras de segurança lhe chamou a atenção. Intrigada com a imagem, ela se aproximou da tela em preto-e-branco. Embora achasse que a semelhança, ainda que assustadora, fosse mera coincidência, a jovem estremeceu e se afastou do visor, tentando colocar os pensamentos em ordem. Porque não fazia nenhum sentido a mulher que saía pela recepção com uma escada debaixo do braço ser exatamente igual a ela.

Exatamente.

Naquela noite (ou na seguinte?), Marina tremia debaixo dos cobertores, o olhar vidrado num ponto perdido no teto. As batidas ecoavam como marteladas vindas das paredes, do chão e do teto, mais fortes do que nunca; a vibração chegava até seu corpo entupindo-lhe os ouvidos e percorrendo cada músculo com um espasmo. As paredes, lambidas pelas luzes que vinham do mundo exterior, pareciam adquirir vida e movimentar-se, pulsando no ritmo descompassado dos golpes. Ela tinha febre. Sua visão ficava cada vez mais turva, o teto que já era alto parecia tomar proporções gigantescas, perdendo-se para sempre no vazio. Então, algumas sombras lhe chamaram atenção vindas da sala. Fraca e trêmula, Marina tentou levantar-se da cama, porém caiu de joelhos, segurando-se na escrivaninha à sua frente. Aos poucos ela foi tateando e se segurando pelas paredes, até chegar ao pequeno cômodo da frente. Do lado de fora de seu apartamento, prostrava-se uma figura que andava de um lado para o outro, parando algumas vezes para esmurrar sua porta.

- Por favor... por favor... eu não... – Marina gemia com todas as forças que lhe restavam, mas era inútil. Os sons arranham sua garganta e morria como sussurros na sala que pulsava e parecia lhe engolir. E antes que pudesse abrir a porta, a garota deixou-se cair, derrotada. A última coisa que viu antes de desmaiar foram as sombras vindas por debaixo da porta, enquanto a pessoa ia embora.

Na noite seguinte, as batidas desaparecem.

Mesmo que isso pudesse significar a volta da paz para sua vida, Marina ainda sentia que algo estava errado, que não estava conseguindo entender a realidade em que se encontrava. A sensação de estar sendo observada ainda não passara totalmente; e ela ainda não descobrira quem estivera em seu apartamento naquela noite. Alguns dias tranquilos seguiram-se de noites calmas e silenciosas, e Marina aos poucos recobrava o controle de seus sentimentos. Em um fim de tarde, pouco antes do fim do expediente, ela lembrou-se de seu diário, há muito esquecido em uma gaveta de sua mesa. Ao abri-lo, encontrou o pequeno caderno totalmente rabiscado, em uma letra ilegível e páginas rasgadas soltas. Marina não conseguia entender nada do que estava escrito, tamanho era o emaranhado de letras e estranhos desenhos, feitos com tanta força que páginas inteiras eram atravessadas por sulcos feitos pelo lápis. E em uma das últimas páginas, ela encontrou a anotação: "não se esquecer de devolver a escada".

Marina sentiu um arrepio correr por sua espinha. Pegou sua bolsa, seu casaco e correu em direção ao elevador. “A janela, a janela! Como eu não reparei que ela foi consertada!? Meu Deus, não fui eu... não pode ter sido! Não...” Porém, algo a paralisou. Após uma fração de segundos sua mente entendeu o que sua visão encarava, como que hipnotizada, no visor da câmera de segurança. O preto-e-branco e as interferências que atravessavam a imagem tornavam ainda mais insanos e fantasmagóricos os olhos que lhe encaravam de volta, como um estático e destorcido reflexo de seus próprios olhos.

Olhos exatamente iguais aos seus.

Ela correu para as escadas, determinada a finalmente descobrir quem era aquela pessoa. Ao chegar à recepção, viu a estranha figura virar a esquina e se misturar à multidão na rua. Esbarrando e até derrubando pessoas, Marina seguiu aquela pessoa, sem ter certeza se estava atrás da figura correta – mas ao mesmo tempo, com uma familiar certeza de onde precisava ir. Depois de intensa corrida labiríntica entre carros e pessoas, seu pressentimento confirmou-se ao se deparar com a entrada de seu prédio – e aquela estranha entrando no elevador. Exausta, ela correu o suficiente para ver pela janela do elevador que subia aqueles olhos terrivelmente negros e estáticos, mas que pareciam sorrir.

Ao terminar de subir as escadas de seu prédio, as luzes automáticas se ascenderam, e a jovem encontrou-se sozinha no corredor de seu apartamento. Lentamente, ela se aproximou da porta e colocou a chave na fechadura. O barulho ecoou por todo o corredor, mais alto do que ela imaginara. Porém, a chave não funcionava. Não dava voltas. Marina andou de um lado para o outro, esfregando o rosto, assustada. Suas mãos tremiam, e nada mais fazia sentido. "Não é possível... não é possível... eu não posso estar ficando louca.... as batidas pararam...” E em um aceso de raiva, a jovem esmurrou a porta, fechando os olhos e rangendo os dentes, até suas mãos arderem e ela mal conseguir abri-las. Porém, encarando seu desespero, ela suspirou profundamente, e pôs-se a caminhar para longe dali.

Foi então que ela ouviu o trinco destravar-se, talvez movido pela batidas e socos.

Marina entrou no quarto escuro, e por vários minutos ela não acreditou no que via. As mãos trêmulas cobriram sua boca, e ela se abaixou lentamente, sentindo o coração acelerar cada vez mais. Moscas cobriam o corpo que jazia ali no chão da sua sala, caído de bruços. Um dos braços se esticava em direção à porta. Marina sentou-se no chão, respirando com dificuldades por causa do cheiro forte que empesteava o apartamento, e viu uma escada caída em um canto. Ela então reparou em um pedaço de papel esmagado entre os dedos da mão que jamais alcançara o trinco. Em uma das páginas de seu diário, lia-se ““As batidas continuam. Elas ecoam pelo apartamento inteiro, sem ritmo definido, às vezes fracas, às vezes fortes... Quando eu acho que elas finalmente terminaram, o som surdo e abafado quebra o silêncio e eu desperto, assustada, olhando para as luzes que entram e se refletem no teto. O batente dessa janela velha está tão torto que quase congelo durante a noite, com o vento que entra pela fresta sempre aberta. Não me lembro quando foi última noite tranquila de sono que tive, ou do último dia inteiro que vivi conscientemente... Antes eu achava que as batidas vinham do vizinho da esquerda, depois tive certeza que eram do da direita; hoje, já nem sei mais de onde elas podem vir. É como se elas não tivessem mais um ponto único de contato, como se...”

As lágrimas desceram quentes, mas um estranho sentimento de calma e leveza as acompanhava. Era como ela entendesse porque não se sentia uma pessoa inteira nos últimos tempos; finalmente, sentia como se acordasse de um longo pesadelo – e voltava a encarar a realidade. Marina então abraçou aquela estranha e familiar figura.

As luzes do corredor se apagaram.



Conto inspirado em tweets (os links deles estão nos comentários) da @littlemarininha! Especial para a sexta-feira 13! (tá, como se eu escrevesse coisas fora desses temas...)