terça-feira, 7 de agosto de 2012

Conto: Uma visita inesperada


Carolina desceu o caminho de pedras que levava da enorme casa de campo para a casinha de bonecas, que ficava nos fundos. Ela vinha nas pontas dos pés e com um braço erguido, como se segurasse com um cigarro. A berrante construção de madeira cor-de-rosa destacava-se dos tons de verde da floresta que circundava a propriedade e do lago, a alguns metros, com sua superfície acinzentada quase imaculada. A manhã estava nublada e fria.
- Mariana, minha querida! Você não imagina como estava o trânsito. – Falava a menina de forma afetada. Ao chegar na frente da casa, Carolina bateu na porta.
- Carol, mas que surpresa! – Recebeu a amiga, com um copo de Martini de plástico cheio de suco. Ela arrumou os cachos loiros com a outra mão e convidou a visita para entrar.
Carolina tinha seis anos e Mariana, cinco.
A menina cumprimentou a anfitriã com um beijo em casa bochecha, retirou a bolsa de lantejoulas e a pôs em uma estante abarrotada de ursinhos e brinquedos.
- Meus pais mandaram um beijo. Eles estão lá em cima com... – Ao se virar, Carolina se deparou com uma visão inusitada, sentada na mesinha de plástico lilás. Por um segundo ela não soube o que pensar, voltando à suas feições e características infantis. Era o tipo de pessoa que ela não esperava encontrar em um “evento desse nível” (como falava sua mãe), e muito menos a sós com a amiga. Ela a estudou com cautela, tomando cuidado para não demonstrar a surpresa e a decepção – que estavam estampadas em seus olhos grandes e azuis. Ela esperava encontrar outras primas e colegas de sua melhor amiga, mas nunca um...
- Oi. _disse o menino sorridente.
- Ah, esse é o meu novo amigo. Essa é a Carol.
- Oi. – A menina sentou-se do outro lado da mesa, e ficou observando o lago, pela janelinha. A música abafada da casa de campo chegava até eles de vez em quando, trazida pelo vento. Ela lançava olhares nervosos para a amiga, que colocava bolachas e canapés em pratinhos roxos (combinando com seu avental cheio de pôneis) e mexia nas panelas de brinquedo, e para o menino – que lhe parecia um tanto... Diferente.
Uma fina neblina pairava sobre o lago, desfazendo-se à medida que o sol saía por detrás das pesadas nuvens. A superfície da água parecia fundir-se com o vapor e o céu cinza, no horizonte.
Carolina tirou as luvas (roxas) e o cachecol xadrez, e reparou na blusa longa e escura que o menino usava, de um tecido grosso e rústico (pobre). A gola lhe tampava o pescoço e quase alcançava seu queixo, e um gorro preto.
-Tá com frio? -Perguntou a garota.
O menino balançou a cabeça, com o mesmo sorriso líneo.
-Tendi. Ãhm... Seus pais também estão na festa do tio e da tia?
-Não. Eu moro aqui perto, e daí resolvi vim brincar com vocês.
Sozinho? Pensou Carolina, mas sua amiga já vinha do outro lado da pequena cabana, com os petiscos.
-Não é legal? Eu queria morar aqui também! E não ter que voltar pra cidade, pra escola...
-Ah, escola é uma droga! – comentou o menino, com a voz baixa, ao que as duas concordaram e riram.
-Ele tava me falando que morar por aqui é muito legal! Que ele e os amigos dele brincam o dia todo na floresta! – Os olhos da menina cintilavam. – Meus pais nunca me deixam ir na floresta, né Carol?...
-Ai, eu ia morrer de medo! – disse Carolina, rindo.
-Que nada, é super legal!
-Mari, olha o meu novo celular. – Carolina retirou o IPhone do bolso. Ele é cheio de joguinhos, tem internet...
-Eu pedi um desses pra minha mãe, mas ela disse que eu sou muito nova pra ele, af! Você tem iPhone?
-Um o que? –perguntou o menino, observando o celular sobre a mesa. Ele olhava desconfiado para o aparelho. -Ah, não, é meus pais também não me deixam ter um, af!
Carolina notou o tom o desconforto do garoto, e tinha quase certeza que era a primeira vez que ele dizia aquela gíria. Seu tom não era natural; era forçado, descabido – aliás, como o próprio menino, que não parecia se encaixar naquela situação. Meninos... af!I Pensou a garota.
-Como você se_
-E aí, a gente vai brincar de quê? – o menino interrompeu Carolina, olhando ao redor da cabana.
-De casinha, ué! Olha a comidinha!
-Ah, não isso é coisa de menina! Vamos brincar de esconde-esconde, lá fora!
-Minha mãe não deixa, eu só posso ficar aqui.
-Nem a minha. – completou Carolina, desapontada.
-Ah, tá bom, vai! – disse o menino, rindo.
Mariana então se sentou, e as duas atacaram a comida.

-Coloca mais suco pra gente? E coloca mais açúcar, que ele ainda está amargo, bléh! – Pediu Mariana, fazendo uma careta. Ela foi até o fogão e pegou o smartphone. Vou pedir pra minha mãe trazer refri.
O menino descruzou os braços e despejou o suco de uva nos copos. Para o espanto de Carolina, as pequeninas mãos dele eram curvas e enrugadas, com pelos negros sobre os dedos e unhas amareladas. Ele então tirou um saquinho de pano do bolso e colocou um pó branco nas duas taças, e as empurrou na direção das garotas. Carolina olhou assustada para a amiga, que dava um imenso bocejo.
-Ai, sem sinal! – E coçou os olhos.
Mariana voltou para seu lugar e pôs-se a tagarelar sobre as aulas de balé, as amiguinhas da escola, sobre as roupas que comprara e do cachorro que os pais estavam enrolando para lhe dar, enquanto bebericava o suco. O menino ria baixinho, e concordava com a cabeça. Carolina, porém, ficava cada vez mais tensa à medida que uma sensação ruim crescia dentro de si. Ela não parava de mexer nos cabelos pretos e longos, e sua respiração acelerava-se a cada gole da amiga – que não percebia que estava começando a falar engraçado. Será que a tia sabe que ele está aqui com a gente? O coração dela disparou, e a garota precisou segurar a vontade de chorar.
-Não vai beber o suco, Carol? Agora tá docinho. – comentou Mariana.
-É, Carol, bebe. – disse o menino, cujo sorriso desaparecera, deixando no lugar um rosto magro e sulcado, esboçando o extremo oposto de sua voz suave. Os vincos que se formaram dos lados da boca chamaram a atenção da garota, mas não mais que seus olhos – negros e redondos, quase negros, com um brilho vítreo. Carolina então desviou o olhar.
-Eu vou lá pra cima, Mari.
- Ah, espera! Tem o bolo. – Ao levantar-se, Mariana deu dois passos trôpegos, tentou se segurar em uma cadeira, mas acabou desmaiando.
-Mari! –Carolina ergueu-se com a voz embargada pelo medo, mas ele fora mais rápido. Com o movimento, do bolso de seu casaco caiu um cachimbo de madeira.
Ao ver Carolina acuada em um canto, arfando e com as expressões deformadas anunciando o choro, o menino sorriu, mostrando os dentes podres.
-Se eu fosse você, ficaria bem quietinha.
Quando ele se abaixou para pegar o cachimbo, seu gorro enroscou em um gancho para casacos – revelando uma lustrosa careca e um par de orelhas longas e pontiagudas.
Carolina começou a chorar e a dizer coisas ininteligíveis, mas algumas frases se formaram corretamente entre seus soluços.
-Deixa a gente em paz... Eu quero a minha mãe... MÃE! – o grito finalmente irrompeu de sua garganta.
Ele pulou o corpo de Mariana e agarrou o pescoço da menina com os dedos grossos e ásperos. Seu hálito era forte e pútrido, quente.
-Se não quiser que eu te visite todas as noites, mocinha, é melhor não contar isso para ninguém. Porque eu vou ficar sabendo. Eu vou. Você não imagina como as notícias voam nessa floresta...
Petrificada, a menina já não tinha certeza do que estava acontecendo. Muda, trêmula e sentindo uma estranha calma se apoderar de suas entranhas, Carolina sentiu o coração desacelerar conforme assistia a cena que se desenvolvia diante de seus olhos brilhantes e arregalados, ainda que sem vida, como os de uma boneca.
Ele tinha as pernas curtas arqueadas para os lados, o que fazia com que balançasse o corpo ao andar. Ao levantar o corpo de Mariana em seus braços, ele cheirou o pescoço da menina, esfregando o rosto no dela, e abriu a porta. Pela janelinha, Carolina viu o diminuto homem correr em direção à mata e perder-se na escuridão.

-Oi meninas! Vim ver como se vocês precisam de alguma coisa. – A mãe de Mariana descia o caminho de pedras com um copo de Martini na mão. – Carol, fofa, o que foi?
Carolina estava sentada em um balanço, quietinha, olhando fixamente para a floresta.
Preocupada, a mulher entrou na casinha, para então sair de novo aos gritos.
-Cadê a Mariana!?
Um vento gélido veio de dentro da floresta, uivando. Uma rajada forte, viva e pulsante, fazendo os galhos daquelas árvores centenárias balançarem e suas copas farfalharem, como se falassem, com cuidado para não perturbarem o silêncio quase palpável.
Como se cochichassem.
E em silêncio, Carolina deu impulso com os pés. E balançou também.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Aos meus 25 anos

Passo as últimas horas dos meus primeiros 24 anos sofrendo e reclamando das coisas de sempre, dos males do meu 1/4 de século.

Da minha ansiedade, que me faz trocar os pés pelas mãos, que me faz enfiar o nariz aonde não era chamado - e que já enfiou o que não era chamado no meu nariz, que enche meus pulmões de fumaça, que me faz verter (sim, "verter", pois sou ultrarromântico, no sentido mais brega e obsessivo da palavra) litros de qualquer coisa goela a baixo, tomar porres e porres homéricos e as melhores das piores decisões possíveis. Que transforma qualquer gota em um copo de água, depois em uma tempestade, e depois em um dilúvio, e depois eu preciso recriar o mundo.

Da minha carência, que me faz ver príncipes encantados em todas as esquinas - e em qual esquina não tem um boteco e um príncipe, que me faz acreditar e viver as mais lindas e traiçoeiras fantasias, que me faz chorar de ansiedade, que me deixa ansioso por chorar de verdade por alguém, que me faz sentir o pai de todas as aberrações por nunca ter namorado nesses anos todos ("Observem, respeitável público, enquanto o homem mais carente do mundo embarca em mais uma fantasia autodestrutiva de carência e autopiedade! Oh, o Horror, o Horror! Só R$2,50!). Minha necessidade de sumir do mundo ao mesmo tempo que tento chamar atenção até dos mortos, e eu espero que você aí - é, você mesmo, sabe quem é - não se assuste e suma ou me queira morto ao ler isso. Por que eu voltaria.

Do meu coração, esse nariz de pugilista, cansado, deformado e arrebentado, vertendo (aí, não falei?) sangue ao final da luta, se contentando com uma cerveja barata e uma puta de bar.

Da minha insegurança, que junto com tudo isso me faz ter as melhores ideias imagináveis - para então perdê-las pela janela do ônibus, em folhas jogadas pela escrivaninha, em guardanapos rabiscados, e até em mensagens que um dia enviei para alguém achando que era meu outro número. Sou desses.

Sou desses, e sempre fui. Por isso, é com um sorriso amargo que celebro essa data querida - sim, com muitas felicidades, mas é óbvio que eu jamais iria agradecer pela minha família e meus amigos, esses portos seguros que me fazem seguir em frente. Também sou desses que não sabem lidar com as boas emoções.

E aí cito o que uma amiga já tuitou: "eu queria pelo menos ter uma pequena previsão de quando eu vou parar de fazer bosta".

Enquanto isso, vou ao posto neste exato momento, que eu mereço uma Heinecken. Cheers, cheers for fears, cheers in heaven!

sexta-feira, 13 de maio de 2011

Ecos


“As batidas continuam. Elas ecoam pelo apartamento inteiro, sem ritmo definido, às vezes fracas, às vezes fortes... Quando eu acho que elas finalmente terminaram, o som surdo e abafado quebra o silêncio e eu desperto, assustada, olhando para as luzes que entram e se refletem no teto. O batente dessa janela velha está tão torto que quase congelo durante a noite, com o vento que entra pela fresta sempre aberta. Não me lembro quando foi última noite tranquila de sono que tive, ou do último dia inteiro que vivi conscientemente... Antes eu achava que as batidas vinham do vizinho da esquerda, depois tive certeza que eram do da direita; hoje, já nem sei mais de onde elas podem vir. É como se elas não tivessem mais um ponto único de contato, como se...”

Marina fechou o diário e tomou outro gole do café. Esfregou os olhos e olhou para o relógio: duas horas já haviam passado, em questão de segundos. "Foco, foco, foco..." ela repetia mentalmente como um mantra, olhando para a tela do computador. Mas logo seu olhar se desviava para a janela, por onde ela assistia a vida se arrastar.

18h30. Mais um rosto cansado na multidão voltando para casa. Marina caminhava mecanicamente pelos corredores do metrô, seguindo o fluxo. No vagão, espremida em um canto contra a janela, ela observava seu reflexo, no meio de muitos outros. As luzes do túnel embaralhavam sua vista cansada. “Meu Deus, que olheiras são essas... esse rosto não pode ser meu..” Ela fechou os olhos. Ao voltar a abri-los, uma multidão de rostos diferentes lhe encarava de volta. A caminhada de volta para casa sempre era um alívio, mas ao se aproximar de seu prédio, um arrepio lhe lembrava daquele estranho barulho que lhe atormentava há dias. O zelador não retornara suas mensagens, muito menos os vizinhos. Ela sentou-se na mureta da garagem e fumou um cigarro, absorta pelo zunido do elevador. “Por favor, esta noite não, por favor..."

Mas aquela noite foi como as outras anteriores, e o dia seguinte também imitou os tantos outros, e a noite seguinte também, e o dia depois do outro. A sensação de repetição e de impotência inundava lentamente a vida da jovem de 24 anos, uma força que lhe sugava as energias e tornavam suas vontades, alegrias e sonhos parte de algo muito remoto, quase como a conversa de um desconhecido no ônibus. Ela sentava no parapeito da janela e via o sol nascer quase todos os dias, rabiscando em seu diário. Os cabelos escuros e lisos lhe caíam pelos ombros, emoldurando seu rosto cada vez mais pálido e sem expressão. As lágrimas às vezes lhe inundavam os olhos castanhos, e ela se entregava ao saudosismo e ao desespero, abraçando os joelhos contra o corpo, chorando baixinho e se lembrando da família e dos amigos que deixara para trás em busca de uma vida melhor, de suas ambições; cada sonho tem seu preço – e às vezes a vida castiga dando aquilo que se deseja. “Era para ser assim mesmo? Onde foram parar...” Mas as palavras já não saíam mais como deveriam; elas também começavam a soar as mesmas, como seus dias.

Foi então que uma estranha sensação começou a lhe incomodar. De início era apenas uma má impressão, como quando se está em uma sala lotada e temos a certeza de que alguém está nos encarando. Mas como o passar do tempo, aquela sensação foi se tornando cada vez mais constante e forte. Era cada vez mais comum Marina sair de seu estado sonâmbulo, como que acordada bruscamente, e olhar apreensiva para trás ou para o lado, respirando com dificuldade.

- Tinha alguém aqui por perto, querendo falar comigo? Nossa, eu ando tão desligada ultimamente, não tenho dormido muito bem... eu jurava que tinha alguém por aqui, sabe? - Mas seus colegas de trabalho apenas olhavam-na e desviavam o olhar, frios, antes de especularem se seu “estado ausente” era por causa de álcool ou pó.

A cada esquina, a cada quarteirão, a cada estação de metro; cada vez que ela saía do elevador, entrava em um bar ou em uma livraria; ao tentar acordar e ao tentar dormir. Marina olhava furtivamente para os lados procurando reconhecer um olhar ou descobrir a razão daquela angústia obsessiva que lhe esmagava os pensamentos. Via risos, olhares de soslaio, vultos irreconhecíveis; sentia cheiros estranhos e vertigens que lhe roubavam os sentidos – e acabava perdida no fim da tarde, olhando o entardecer como se rebobinasse seu próprio filme.

O acontecimento que finalmente colocou sua saúde mental em cheque ocorreu da maneira mais casual possível – afinal, os absurdos da vida sempre vêm camuflados nas mais corriqueiras banalidades. Marina andava pelo escritório durante um intervalo, bebendo seu café, quando na sala de recepção uma imagem no visor das câmeras de segurança lhe chamou a atenção. Intrigada com a imagem, ela se aproximou da tela em preto-e-branco. Embora achasse que a semelhança, ainda que assustadora, fosse mera coincidência, a jovem estremeceu e se afastou do visor, tentando colocar os pensamentos em ordem. Porque não fazia nenhum sentido a mulher que saía pela recepção com uma escada debaixo do braço ser exatamente igual a ela.

Exatamente.

Naquela noite (ou na seguinte?), Marina tremia debaixo dos cobertores, o olhar vidrado num ponto perdido no teto. As batidas ecoavam como marteladas vindas das paredes, do chão e do teto, mais fortes do que nunca; a vibração chegava até seu corpo entupindo-lhe os ouvidos e percorrendo cada músculo com um espasmo. As paredes, lambidas pelas luzes que vinham do mundo exterior, pareciam adquirir vida e movimentar-se, pulsando no ritmo descompassado dos golpes. Ela tinha febre. Sua visão ficava cada vez mais turva, o teto que já era alto parecia tomar proporções gigantescas, perdendo-se para sempre no vazio. Então, algumas sombras lhe chamaram atenção vindas da sala. Fraca e trêmula, Marina tentou levantar-se da cama, porém caiu de joelhos, segurando-se na escrivaninha à sua frente. Aos poucos ela foi tateando e se segurando pelas paredes, até chegar ao pequeno cômodo da frente. Do lado de fora de seu apartamento, prostrava-se uma figura que andava de um lado para o outro, parando algumas vezes para esmurrar sua porta.

- Por favor... por favor... eu não... – Marina gemia com todas as forças que lhe restavam, mas era inútil. Os sons arranham sua garganta e morria como sussurros na sala que pulsava e parecia lhe engolir. E antes que pudesse abrir a porta, a garota deixou-se cair, derrotada. A última coisa que viu antes de desmaiar foram as sombras vindas por debaixo da porta, enquanto a pessoa ia embora.

Na noite seguinte, as batidas desaparecem.

Mesmo que isso pudesse significar a volta da paz para sua vida, Marina ainda sentia que algo estava errado, que não estava conseguindo entender a realidade em que se encontrava. A sensação de estar sendo observada ainda não passara totalmente; e ela ainda não descobrira quem estivera em seu apartamento naquela noite. Alguns dias tranquilos seguiram-se de noites calmas e silenciosas, e Marina aos poucos recobrava o controle de seus sentimentos. Em um fim de tarde, pouco antes do fim do expediente, ela lembrou-se de seu diário, há muito esquecido em uma gaveta de sua mesa. Ao abri-lo, encontrou o pequeno caderno totalmente rabiscado, em uma letra ilegível e páginas rasgadas soltas. Marina não conseguia entender nada do que estava escrito, tamanho era o emaranhado de letras e estranhos desenhos, feitos com tanta força que páginas inteiras eram atravessadas por sulcos feitos pelo lápis. E em uma das últimas páginas, ela encontrou a anotação: "não se esquecer de devolver a escada".

Marina sentiu um arrepio correr por sua espinha. Pegou sua bolsa, seu casaco e correu em direção ao elevador. “A janela, a janela! Como eu não reparei que ela foi consertada!? Meu Deus, não fui eu... não pode ter sido! Não...” Porém, algo a paralisou. Após uma fração de segundos sua mente entendeu o que sua visão encarava, como que hipnotizada, no visor da câmera de segurança. O preto-e-branco e as interferências que atravessavam a imagem tornavam ainda mais insanos e fantasmagóricos os olhos que lhe encaravam de volta, como um estático e destorcido reflexo de seus próprios olhos.

Olhos exatamente iguais aos seus.

Ela correu para as escadas, determinada a finalmente descobrir quem era aquela pessoa. Ao chegar à recepção, viu a estranha figura virar a esquina e se misturar à multidão na rua. Esbarrando e até derrubando pessoas, Marina seguiu aquela pessoa, sem ter certeza se estava atrás da figura correta – mas ao mesmo tempo, com uma familiar certeza de onde precisava ir. Depois de intensa corrida labiríntica entre carros e pessoas, seu pressentimento confirmou-se ao se deparar com a entrada de seu prédio – e aquela estranha entrando no elevador. Exausta, ela correu o suficiente para ver pela janela do elevador que subia aqueles olhos terrivelmente negros e estáticos, mas que pareciam sorrir.

Ao terminar de subir as escadas de seu prédio, as luzes automáticas se ascenderam, e a jovem encontrou-se sozinha no corredor de seu apartamento. Lentamente, ela se aproximou da porta e colocou a chave na fechadura. O barulho ecoou por todo o corredor, mais alto do que ela imaginara. Porém, a chave não funcionava. Não dava voltas. Marina andou de um lado para o outro, esfregando o rosto, assustada. Suas mãos tremiam, e nada mais fazia sentido. "Não é possível... não é possível... eu não posso estar ficando louca.... as batidas pararam...” E em um aceso de raiva, a jovem esmurrou a porta, fechando os olhos e rangendo os dentes, até suas mãos arderem e ela mal conseguir abri-las. Porém, encarando seu desespero, ela suspirou profundamente, e pôs-se a caminhar para longe dali.

Foi então que ela ouviu o trinco destravar-se, talvez movido pela batidas e socos.

Marina entrou no quarto escuro, e por vários minutos ela não acreditou no que via. As mãos trêmulas cobriram sua boca, e ela se abaixou lentamente, sentindo o coração acelerar cada vez mais. Moscas cobriam o corpo que jazia ali no chão da sua sala, caído de bruços. Um dos braços se esticava em direção à porta. Marina sentou-se no chão, respirando com dificuldades por causa do cheiro forte que empesteava o apartamento, e viu uma escada caída em um canto. Ela então reparou em um pedaço de papel esmagado entre os dedos da mão que jamais alcançara o trinco. Em uma das páginas de seu diário, lia-se ““As batidas continuam. Elas ecoam pelo apartamento inteiro, sem ritmo definido, às vezes fracas, às vezes fortes... Quando eu acho que elas finalmente terminaram, o som surdo e abafado quebra o silêncio e eu desperto, assustada, olhando para as luzes que entram e se refletem no teto. O batente dessa janela velha está tão torto que quase congelo durante a noite, com o vento que entra pela fresta sempre aberta. Não me lembro quando foi última noite tranquila de sono que tive, ou do último dia inteiro que vivi conscientemente... Antes eu achava que as batidas vinham do vizinho da esquerda, depois tive certeza que eram do da direita; hoje, já nem sei mais de onde elas podem vir. É como se elas não tivessem mais um ponto único de contato, como se...”

As lágrimas desceram quentes, mas um estranho sentimento de calma e leveza as acompanhava. Era como ela entendesse porque não se sentia uma pessoa inteira nos últimos tempos; finalmente, sentia como se acordasse de um longo pesadelo – e voltava a encarar a realidade. Marina então abraçou aquela estranha e familiar figura.

As luzes do corredor se apagaram.



Conto inspirado em tweets (os links deles estão nos comentários) da @littlemarininha! Especial para a sexta-feira 13! (tá, como se eu escrevesse coisas fora desses temas...)

terça-feira, 19 de abril de 2011

Pânico 4 (resenha)

Sequência nostálgica com jeito de refilmagem peca por excesso de metalinguagem e não deixa espaço para material original próprio


O diretor Wes Craven abre o novo capítulo da cine-série “Pânico” reconhecendo e satirizando o que qualquer crítico ou fã da trilogia original possa reclamar a respeito deste longa: exploração de fórmulas e ideias gastas, sequência oportunista e uso de metalinguagem que já não é novidade para ninguém em um gênero já decadente. Assim Craven tenta (re)fazer o que o primeiro "Pânico" fez há mais de uma década - um bem humorado comentário sobre os filmes de terror atuais, além de dar continuidade e inovar o gênero. Pena que o filme falhe nesta segunda tarefa.

A grande sacada do filme de 1996 era encher a trama com referências a outros longas do gênero, que faziam os fãs de filmes de terror sorrirem de felicidade ao verem sua paixão reconhecida e usada na tela grande, definir os clichês e regras dos filmes de serial killers e, ainda assim, fazer um “ teen terror” original. Essa metalinguagem não era comum na época, e o filme em si abriu caminho para uma nova leva de assassinos em série matadores de adolescentes no cinema. Mas os tempos e principalmente o cinema são outros em 2011. Duas sequências, o declínio do "terror adolescente", a ascensão do "torture porn" e o reinado das refilmagens fazem de "Pânico 4" um produto nostálgico e um prato cheio para Craven e o roteirista Kevin Willamson (ambos mentores da trilogia original) reavaliarem o terror atual – porém, a dupla foca demais nas referências e nas auto-referências e se esquece de criar uma trama própria mais consistente.

O longa mostra Sidney Prescott (Neve Campbell) voltando para a cidade de Woodsboro depois de mais de uma década após os assassinatos, para o lançamento de seu livro. Lá ela reencontra os amigos e sobreviventes Dewey (David Arquette) e Gale (Courtney Cox), mas seu retorno traz de volta também o assassino mascarado (com a famosa máscara de “ghostface”) que vai aterrorizar não só Sidney, mas sua prima Jill (Emma roberts) e seus amigos. Enfim, com novas caras adolescentes e mais sangue e mortes que os anteriores (para a plateia que se acostumou com “jogos Mortais” isso nunca é o suficiente), não há uma cena sequer em “Pânico 4" que não faça referência aos filmes de terror dos últimos anos ou à trilogia original. Há a discussão não muito clara das novas regras do gênero – a regra é não seguir as regras, e o negócio é fazer uma refilmagem que supere o original em todos os sentidos, mas esta acaba não deixando espaço para a construção da tensão, da trama em si e principalmente dos novos personagens - a motivação do(s) assassino(s) (será apenas um? serão dois como nos anteriores? As regras mudam mesmo?) é totalmente a esmo e sem fundamento, um ponto muito fraco em relação aos outros da trilogia. E é ótimo ver Dewey e Gale tentando resolver o mistério como antigamente, assim como Sidney é o único personagem com profundidade e verdadeira conexão com os longas originais. Porém, há pouco espaço para os “velhos” elementos no meio da necessidade quase gritante de renovação que o longa deixa transparecer.


“You forgot the first rule about remakes: don’t fuck with the original”. A frase, que mostra certo cinismo na visão dos criadores, mostra como “Pânico 4” é uma sequência com cara de refilmagem, contendo o próprio making-off. Mas será que eu é que fiquei velho e ranzinza, e não entendo mais o que me fazia gostar tanto desses “slasher films” na adolescência? Após rever a trilogia original (digo "original" porque elas fecham uma história completa, na qual o próprio diretor afirmou não querer mais trabalhar) antes de assistir este novo, afirmo que continuo admirando e gostando muito dela. No final das contas, “Pânico 4” é bem humorado e tem seus momentos, mas tinha muito potencial para ser melhor. E também, em se tratando de continuações, poderia ter sido muito pior.

terça-feira, 29 de junho de 2010

Coletânea "O Lado Sombrio - 13 Contos Imortais"

Acabou se ser lançada o livro "O Lado Sombrio - 13 contos imortais", coletânea da Editora CanalBRV que reúne contos de terror e suspense de autores novos brasileiros - entre eles, este que vos escreve!



Suspense e terror são gêneros literários que fascinam leitores em todo o mundo, mas que ainda dispõem de poucos autores no Brasil. “Sabemos que há uma multidão de fãs assíduos, mas ainda carecemos de escritores desse universo particular da literatura em nosso País”, comenta o escritor Paulo Ballado. Foi pensando nisso que Ballado promoveu uma extensa seleção nacional. O resultado é a obra “O Lado Sombrio - 13 Contos Imortais” (Editora BRVCom, 128 pág.), que será lançada neste domingo (27/06), no Bar Calabouço.

“A seleção durou vários meses e utilizamos todos os meios possíveis, de indicações a entrevistas, para reunir os 13 melhores contos de suspense e terror de escritores brasileiros da atualidade”, relata Ballado.

São, ao todo, nove os autores da obra: Vitelio Brustolin, Vivian Wolkoff, Marcelo dos Santos, Rafael Bonaldi, Virgílio Gabriel, Dgenal Gonçalves Rocha, Rubem Cabral, Eduardo Caon e o próprio Paulo Ballado, que além de assinar o conto de encerramento, é o organizador do livro.

O livro pode ser adquirido POR ESTE SITE.

Mais detalhes no blog do CanalBRV!

Nota que saiu no jornal O dia, quando a coletânea foi lançada:



VAMOS AJUDAR OS NOVOS ESCRITORES BRASILEIROS, JÁ QUE A LITERATURA NESTE PAÍS É ALGO TÃO DESPREZADO - AINDA MAIS A LITERATURA FANTÁSTICA!

terça-feira, 1 de junho de 2010

Irmãos

Não venha me dizer que você não tem.
Eu tenho, você tem, todo mundo que puder imaginar tem. E isso inclui André Figueiredo, por incrível que pareça. Veja bem: essa cidade é pequena e o povo fala demais, não importa o assunto. E muitas vezes um caso é contado tantas vezes e por tanto tempo, sofrendo as mais variadas distorções e adições de detalhes, que ele acaba se tornando uma bela aberração, se comparada aos fatos originais. E quem vê André hoje, andando apressado pelas ruas para não perder a hora ou o ônibus, não imagina que esse trabalhador calvo e acima do peso seja ele mesmo - ou melhor, aquele André.
Meu irmão estudou na classe dele na sétima série...
Minha prima ficou com ele uma vez, antes daquilo acontecer...
Eu tenho um amigo, que tem um amigo, que comprou cerveja pra ele numa festa, há muito tempo atrás....
Todo mundo tenta criar um vínculo entre a história que vão contar e eles mesmos, é uma artimanha natural para se ganhar a confiança do ouvinte, pergunte para qualquer testemunha de Jeová. Mas acontece que André e eu éramos muito amigos naquela época. Além de estudarmos na mesma escola, fazíamos juntos aulas de judô desde criança e tínhamos quase os mesmos grupos de amigos – bem, nenhuma coincidência mágica para uma cidade como essa. Tínhamos 17 anos, certeza absoluta de que nossos sonhos estavam predestinados a darem certo, nenhum juízo e um indisfarçável otimismo diante da vida.
Mas André era... O Cara. Todo mundo conhece um cara ou uma menina assim, tem sempre um desses ao nosso redor nessa idade. Você já deve ter odiado uma pessoa dessas, ou amado em segredo, ou ainda deve ter copiado cada atitude e corte de cabelo na tentativa de ter "personalidade própria". Talvez tenha até começado a fumar por causa d'O Fulano ou d'A Sicrana. Eu era o amigo d'O Cara, com todos os benefícios que se pode ter disso. E em meio a garotas, festas, bebedeiras escondidas, competições de judô, mais garotas, escola e mais festas, não parecia existir nada errado ou fora do lugar no mundo; as coisas ruins estavam apenas no jornal das 8 ou na casa daquele primo distante. Até aquele dia.
Era mais um treino de judô, e André e eu estávamos ajudando o professor a fazer exercícios com os alunos menores. Chutes, socos, pulos, corridas, cambalhotas, enfim, todo o tipo de golpes de nomes complicados que eu já nem lembro. E todos queriam desafiar André, já que ele era o campeão das regionais pelo terceiro ano consecutivo. Ele lutou e venceu os novatos por umas duas horas seguidas, sem perder a pose, aproveitando cada vitória como uma merecida massagem no ego. E André sabia que estava cansado quando o último da fila pisou no tatame; sabia que suas costas estavam doloridas, e que o gordinho mal-encarado não sabia lutar limpo. Veja bem, não estou julgando-o, eu teria feito o mesmo. Por isso, quando André recebeu aquele chute na barriga que o fez cair e ficar desacordado por meia hora, eu devo ter sido a pessoa que mais sentiu sua dor. Ainda me lembro daquela sensação, queimando a boca do estômago.
Nas primeiras semanas, enquanto a notícia de sua derrota para um menino da sétima série se espalhava pela cidade, André tentava rir do assunto e arranjava mil e umas desculpas, sempre com um risinho nervoso e sua usual ajeitada na franja, jogando a cabeça para o lado. Mas o que só eu sabia era da dor em sua barriga que nunca passava, e que parecia só aumentar. Ele reclamava pouco; achávamos que era apenas mais uma contusão passageira. Mas às vezes, quando André não estava prestando atenção, eu observava seu rosto ficar tenso e preocupado, seu olhar longe e aflito, perdido por vários minutos. Até que ele voltava a si e olhava para mim, e a gente fingia que nada estava acontecendo.
Foi nessa época então que comecei a perceber o que todo mundo tem. Meu pai tinha insônia, coisa que jamais pude imaginar. Talvez a causa disso fossem as contas atrasadas ou as crises de choro na cozinha, de madrugada, enquanto tomava um trago. Até então eu nunca tinha percebido que minha mãe se entupia de antidepressivos. Ainda me lembro dela parada na pia da cozinha, o olhar fixo no céu, hipnotizada; sua boca esboçava um lindo sorriso, com dentes e tudo, e por vezes uma lágrima descia tímida, mal alcançando o lábio. Minha finada mãe... Sentia-me um criminoso reparando nesses momentos de solidão das pessoas. Era angústia, minha primeira vez: algo havia se partido dentro de mim, e eu espiava pela rachadura.
A barriga de André inchava. Sua família pulava de médico em médico na cidade, mas nenhum sabia dar um diagnóstico correto. Eventualmente os rumores começaram a sair dos consultórios e tomaram proporções dramáticas, já que em uma cidadezinha como essa o sigilo médico é tão forte quanto o de um confessionário. André já não saía mais nos finais de semana e mal frequentava a escola. Não só pelas dores terríveis que o faziam se contorcer, mas pelos olhares, as ofensas veladas e o abandono daqueles que sempre o rodearam. Eu sempre fiquei ao seu lado; mesmo nos piores momentos, como quando sua barriga chegou ao tamanho da de uma grávida, cheia de estrias vermelhas e roxas, eu passava dias em sua casa, tentando fazê-lo esquecer daquilo tudo. Chegávamos a dividir a mesma cama, varando a madrugada vendo filmes.
Todo mundo tem segredos. Daqueles desconfortáveis e delicados, que sempre deixam uma reunião de família em silêncio, e que geralmente passam despercebidos para a maioria das pessoas. Como duas meninas da classe, que sempre andavam juntas e se abraçavam e se beijavam demais; ou um garoto da outra turma que não percebia que estava sempre com as coisas dos outros na mochila. E com o tempo as coisas pareceram surgir do nada para a gente, apesar de sempre terem estado debaixo do nosso nariz: a irmã deprimida de meu vizinho fugiu de casa, cansada de ser molestada pelo tio; meu pai brigou com o cunhado, deixando bem claro uma desavença de mais de vinte anos; meu primo Tadeu passou a atender pelo nome de Tanya (com ípsilon); e a morte de parentes e amigos passou a ser mais incompreensível e comum do que nunca. Enfim, coisas que a gente aprende a se acostumar.
Um dia André começou a ter convulsões e apagou. Do hospital da cidade, ele foi levado para a capital, e lá ficou internado por um mês. Mas mesmo depois que ele voltou, seu semblante parecia mais sério, mais maduro. Falava pouco, passou a desinteressar-se por esportes e por festas. Seu círculo de amigos quase se extinguiu, principalmente pelo fato de sua doença nunca ter sido explicada para todo mundo, e até hoje você pode escutar desde câncer e AIDS até desintoxicação de drogas. Mas eu sei o que realmente aconteceu. E se isso não é um desses fatos estranhos que a gente tenta esconder... bem, acho que é pelo menos o tipo de coisa que faz a gente encarar a vida com outros olhos.
Chama-se “Fetus in fetu”. Há menos de 100 casos reconhecidos pela medicina desde o início do século XX. Acontece quando, na formação dos embriões de gêmeos idênticos, um deles acaba ficando dentro do outro, e passa a depender daquele que se desenvolveu para continuar vivendo, mesmo que não se desenvolva totalmente. Os especialistas explicaram que o irmão de André estava em uma cavidade acima do estômago, dependendo dele, mas sem causar danos à sua saúde. O golpe que ele recebeu no judô não só matou o feto, mas também o deslocou, causando uma reação de rejeição do organismo.
É conhecido também como gêmeo parasita.
“É o olho do meu pai”, me disse André uma das últimas vezes que estive em sua casa. Ele segurava o pote de formol contra a luz, e o pequeno feto girava na água oleosa como em uma vitrine. O olho aberto era azul, brilhante, diferente dos olhos verdes de André. O gêmeo era enrugado e tinha todos os membros quase totalmente formados, apesar de ser minúsculo. Seu cabelo era negro e farto. “Minha mãe insistiu em ficar com ele".
Com o tempo, nos tornamos dois completos estranhos. Bem, isso às vezes acontece com amigos de infância, nem todas as boas amizades duram para sempre. É mais umas das coisas que a gente aprende a se acostumar na vida. E mesmo que não seja errado sentir-se triste ao pensar dessa forma, é preciso saber levar, pois sempre que você se pegar acendendo um cigarro depois de tentar parar pela milésima vez, sempre que você esbarrar com O Fulano ou a Sicrana na rua, esse sentimento ruim vai aflorar, e é melhor não lhe dar vazão. É para o nosso próprio bem. Às vezes posso imaginar algum jantar na casa do André onde, em algum determinado momento, todos ficam em silêncio, sem mover os talheres ou as bocas. Ninguém se olha, mas a mesma sensação flutua por todas as mentes. Dura apenas um segundo, talvez menos até. Todos sentem como se estivessem sendo observados por um pequenino olhar, que nunca hesita, descansa ou perdoa.
Se bem que eu acho que todo mundo se sente assim algumas vezes.
Antes de a gente parar de se sentir obrigado a se cumprimentar ou ter que fingir que não viu o outro passar, André e eu saímos de carro algumas vezes para conversar e beber. Eram tentativas de fazer tudo voltar a ser como era antes; conversávamos e ríamos como se nunca tivéssemos nos afastado, e combinávamos de ligar para o outro no dia seguinte. Tudo em vão. Na última vez, era uma noite abafada e sem lua, e a gente bebia na caçamba da minha picape. Eu fiz uma piada que o deixou irritado, a ponto de quebrar a garrafa de cerveja na calçada, mas aí ele riu muito, e eu ri muito também.
- Já pensou que poderiam ser trigêmeos?
Depois, fez-se um silêncio longo e constrangedor. Daí ele me abraçou, e começou a chorar.